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Helder Maldonado e Ricardo Cruz*, do R7

Junior Angelim, Denner Ferrari e Hugo Henrique são, atualmente, alguns dos maiores nomes quando o assunto é hits sertanejos. Se você não conhece nenhum deles, não se espante: eles operam, por trás dos palcos e estúdios, a verdadeira máquina de fabricação de hits, composta por escritórios, escritores, jovens e antigos aspirantes a artistas de renome. 

“Minha primeira opção era ser cantor. Mas como não encontrava espaço, cedi músicas minhas para intérpretes que eu acreditava ter condições para converter minhas composições em sucessos. Foi o caminho que tive à disposição. Afinal, eu provei que tenho potencial para o sucesso", diz Junior Angelim, que gravou "Apelido Carinhoso", famosa na voz de Gusttavo Lima, além de ser autor de "Ressentimento", de Jads e Jadson, "Seu Polícia", de Zé Neto e Cristiano e "Coração Calejado", de Jorge e Mateus, músicas que contam com milhões de visualizações no YouTube e outras plataformas digitais.

Minha primeira opção era ser cantor. Mas como não encontrava espaço, cedi minhas músicas
Junior Angelim

A composição de músicas gerou um mercado altamente rentável no segmento sertanejo. Ao contrário de gêneros musicais em que o autor compõe para si mesmo ou para ceder a parceiros históricos, nesse estilo a alta demanda por novas criações musicais faz com que compositores sejam requisitados e disputados pelos escritórios artísticos.  E com essa procura, empresas especializadas em elaborar novas músicas (conhecidas como coletivos de compositores) operam como verdadeiras linhas de produção.

Sinais de um novo tempo, em que a efemeridade de um single é cada vez maior. Diferentemente do passado, quando uma música poderia ser trabalhada por seis meses ou até um ano; na realidade, atual um hit tem uma vida útil de no máximo três meses. Isso quando dá certo. Se der errado, o artista pode buscar um “plano emergencial” e substituir o single fracassado por outro em cerca de 45 dias.

O padrão de funcionamento do segmento faz com que novas músicas sejam um artigo cada vez mais valioso para abastecer os repertórios dos cantores. E quem mais lucra com isso são os compositores. Se no passado esses integrantes do mercado quase não eram remunerados se não tivessem grande volume de composições gravadas ou uma carreira de cantor em paralelo, hoje eles podem se gabar de ter um pé de meia razoável com meia dúzia de músicas gravadas por grandes astros.

Basta que os contratos leoninos de liberação e exclusividade entre autores e artistas sejam bem costurados. Em determinados casos, essa realidade cria verdadeiros leilões entre os escritórios, que não medem esforços e nem investimentos para ter acesso a alguma música com grande potencial de sucesso.

Para ampliar os negócios nessa área, muitos compositores criam coletivos para negociar de uma maneira mais abrangente. Por isso, hoje em dia não é difícil ver uma música assinada por cinco, dez ou até mais pessoas.

Com vários sócios numa mesma empresa se dedicando em horário comercial para compor, essas linhas de montagem jogam no mercado cerca de 100 novas músicas por mês cada. Nem todas são aproveitadas. E nem são consideradas tão boas até pelos próprios autores.

Mas se dez delas pararem nas mãos de nomes do porte de Marília Mendonça, Simone e Simaria e Zé Neto e Cristiano, todos os envolvidos estarão no lucro, literalmente.

Apesar de não divulgarem os valores cobrados, produtores do mercado revelam que uma liberação não sai por menos de R$ 5 mil e a exclusividade para gravar começa em R$ 10 mil, mas pode e supera facilmente esse valor.

Compositores em tempo integral

Uma das empresas especializada na prática de composição coletiva é a Faia Não Music, de Goiânia. Com seis integrantes, eles se reúnem diariamente e se dividem em grupos para criar.

No caso específico dessa empresa, só entram nos créditos quem realmente participou da composição. E, às vezes, nem se trata de um dos sócios, já que diariamente eles recebem parceiros na sede.

Em outros grupos, todos assinam, tendo participação ou não. “A porcentagem da música na Faia Não é dividida igualmente para todos os compositores que participaram. Ou seja: se tem três compositores, 33,33% para cada; se forem quatro, 25% para cada e assim por diante. Mas cobramos também uma pequena contribuição para manter nosso escritório. São valores simbólicos, mas que ajudam no crescimento e manutenção do nosso local de trabalho", explica Denner Ferrari, um dos sócios do escritório.

Dentre as músicas gravadas pela Faia Não Music, há hits de Gusttavo Lima ("Tudo Que Vai Um Dia Volta" e "Final do Fim"), Zé Neto e Cristiano ("A Farra Perdeu Pro Amor"), Joelma ("18 Quilates"), Cleber e Cauan ("Filho da Mãe"), Luiza e Maurilio ("Jogo é Jogo e Greve de Respirar"), Munhoz e Mariano ("Pen Drive de Modão e Tomador de Whisky"), Lucas Lucco ("Ausência de Roupa"), Simone e Simaria ("1 em 1 milhão"), entre outras obras.

Com a música pronta, vem a segunda etapa: a venda. E é nesse estágio que o escritório abandona o lado criativo e age como um verdadeiro estabelecimento comercial.

"Vendemos muita música pelo WhatsApp"
Denner Ferrari

“As negociações acontecem normalmente de quatro formas: direto com o cantor, direto com o escritório, com produtor ou por meio de audição”, explica Junior Avellar, da BigJShows, que tem no portfólio músicas como "Jenifer" (Gabriel Diniz), "Separada" (Maiara e Maraisa), "Tá Entendendo Não" (Fernando e Sorocaba part. Mano Walter), "Expectativa" (Gusttavo Lima), "Coisa de Homem" (Loubet) e "Pelos Cantos" (Marília Mendonça).

Ferrari ressalta que, com a modernidade, até as redes sociais funcionam como ferramenta de aproximação com os artistas. “A gente se desloca até o local ou eles vêm até o escritório para mostrarmos as músicas pessoalmente. E, principalmente, vendemos pelo WhatsApp. Às vezes, a música chega ao artista mesmo sem a gente enviar. Um vai passando para o outro e, de repente, o artista está com a música na mão. É bem legal quando acontecem essas coincidências”, esclarece Ferrari.

Sobra sucesso, falta tempo

Esse serviço prestado principalmente por jovens compositores funciona também para preencher uma lacuna que os artistas não conseguem atender ao assumir agendas com mais de 20 shows mensais: arranjar tempo para compor.

Muitos cantores que começaram criando para outros e para o próprio trabalho, deixaram a inspiração de lado por não ter como dar um prosseguimento a essa tarefa.

sertanejo (Arte/R7)
sertanejo Arte/R7

É o caso de Maraisa, que já foi mais ativa na seara da composição. Ela, que vê como uma evolução natural o surgimento dos coletivos, prefere criar sozinha ou com apenas um parceiro. Mas com a fama, nem isso tem dado para fazer.

“Separada (composição do grupo BigJShows) tem um monte de gente. Eu não sei como é o esquema deles, mas acho que cada um tem a sua proposta e o que vale é o resultado da obra. Na época que nós ainda não erámos conhecidas e não tínhamos tanto trabalho, dava mais tempo para nos dedicarmos à composição. Hoje, a gente tenta, mas fica mais difícil, por que tem que estar focado, mente tranquila. A gente acaba tendo que administrar os shows, atender fãs, agenda, e aí a composição fica um pouco de lado”, lamenta Maraisa.

Apesar da pouca idade, Hugo Henrique demonstra maturidade para opinar sobre o assunto. O cantor, de 13 anos, e que tem músicas gravadas até por Marília Mendonça sabe que quem tiver melhor repertório já sai na frente para garantir boas agendas de show.

E por isso mesmo não tem “ciúmes” de ceder as próprias músicas, pois sabe que também precisará de criações de terceiros para elaborar o próprio repertório. “É uma troca. Ao mesmo tempo que cedo com exclusividade uma canção minha, também exijo exclusividade quando gosto de algo composto por outra pessoa. É uma troca, um negócio normal”, garante.

Mauricio Mello, que compôs "Suíte 14" (Henrique & Diego/Mc Guimê), "Chora Chora "(Gusttavo Lima), "Vou Jogar a Chave Fora" (Maria Cecília e Rodolfo), "Enquanto Houver Razões" e“Louca de Saudade" (Jorge & Mateus), esteve dos dois lados do balcão. No entanto, foi como compositor que ele achou o sucesso. Ele analisa com bons olhos os coletivos, mas garante que tem horários e maneiras de trabalhar que impediriam ter tantos parceiros de trabalho. “Eu componho às 6h, 8h da manhã. É difícil achar parceiro acordado essa hora”, brinca ele.

Disputa na Justiça

Mas como em qualquer mercado, a procura muitas vezes excede a demanda. Sendo assim, é possível ouvir a mesma música nas vozes de cantores e duplas diferentes, que se digladiam nas paradas para saber quem vai estourar primeiro quando não obtém exclusividade e apenas a liberação.

Exemplos do tipo não faltam. Em 2012, Leo Rodriguez, Michel Teló e Cristiano Araujo gravaram "Bara Bara Berê Berê", de Dorgival Dantas, ao mesmo tempo. A música pode ter sido determinante para que o cantor morto em 2015 (e que acabou atingindo mais êxito com ela que os outros dois) tenha fortalecido sua imagem, enquanto Leo não teve a mesma sorte. Para Michel, o caso não impactou em nada, já que ele havia acabado de estourar com "Ai Se Te Pego".

Mas mesmo assim essa guerra fria nos bastidores do sertanejo foi parar na Justiça. O compositor alegou que não tinha dado liberação para Leo. Os dois únicos que poderiam gravar eram Cristiano e Michel.

A gravadora Som Livre e a editora Universal Publishing rebateram Leo por meio de uma nota, que dizia que ele estava cometendo "uma violação dos direitos do autor ao gravar e comercializar a música 'Bara Bará Bere Berê'". Por isso, apesar de parecer exagerado, os contratos de exclusividade e negociações impedem que esse tipo de problema judicial seja repetido.

Zé Neto e Cristiano passaram pela mesma polêmica, numa negociação em que muitos desentendimentos aconteceram. A dupla gravou "Largado às Traças" (música mais tocada de 2018) logo depois do jovem João Felippe. Neste caso ainda houve um agravante: como adquiriram a exclusividade da composição, Zé Neto e Cristiano exigiram que João Felippe retirasse sua versão do YouTube. O cantor conseguiu provar que havia adquirido a liberação antes que a exclusividade tivesse sido garantida por ZN&C. Porém, os louros ficaram todos para a dupla famosa, de qualquer maneira.

"Apelido Carinhoso" foi gravada primeiramente por Junior Angelim, porém longe de chegar perto da repercussão que ganhou com Gusttavo Lima. Como ele não obteve êxito com a própria música, ceder para Gusttavo foi um caminho natural para recuperar o tempo perdido ao tentar divulgar a música (que ganha muita exposição quando cai nas mãos consideradas certas).

"Hoje é possível viver bem sendo só compositor. Mas é um dinheiro tentador. Ao mesmo tempo que tem gente que se aposenta ao emplacar um sucesso, há quem gaste tudo em um mês também. Vai da pessoa saber lidar com a fama e a grana. Uns quatro anos, pelo menos, dá para viver”, garante Angelim.

*Estagiário do R7, sob supervisão de Thiago Calil


Reportagem: Helder Maldonado e Ricardo Cruz 
Edição: Leonardo Martins
Arte: Matheus Vigliar e Lucas Martinez