R7 Diversão Bailarino cubano abandona tudo para viver um grande amor

Bailarino cubano abandona tudo para viver um grande amor

Yasser Díaz, que hoje atua no Balé da Cidade de São Paulo, conta sua história 

Bailarino cubano abandona tudo para viver um grande amor

O bailarino cubano Yasser Díaz, hoje atua no Balé da Cidade de São Paulo

O bailarino cubano Yasser Díaz, hoje atua no Balé da Cidade de São Paulo

Eduardo Enomoto/R7

Você teria coragem de largar tudo para viver um grande amor? Yasser Díaz deixou seu país, Cuba, sua família e até mesmo uma carreira promissora para viver em São Paulo, ao lado de Vanessa Guillén, sua grande paixão.  Há 15 anos atuando como bailarino do Balé da Cidade de São Paulo, Díaz contou sua história ao R7, na Praça das Artes, na futura sede da companhia.

Nascido em Havana, Díaz cresceu em uma família ligada ao movimento revolucionário de Fidel Castro. Sua mãe foi uma das primeiras mulheres a dirigir um trator durante a reforma agrária do país.

— Eu vim de uma família bem engajada politicamente. Minha mãe sempre foi uma guerreira, apesar de não ter uma educação formal, sem ter feito faculdade, sempre leu muito, foi uma autodidata que gostava muito das artes. Ela foi a pessoa que me incentivou a ir para o balé.

Antes de ingressar no mundo das artes, dos 5 aos 10 anos, Yasser fez aulas de ginástica olímpica com um professor que também fazia o preparo físico dos bailarinos do Balé Nacional de Cuba, uma das mais respeitadas e tradicionais companhias de dança do mundo.

— Na década de 1990, a situação de Cuba era muito difícil. Começou a cair o campo socialista, em especial a União Soviética, que era quem mais subvencionava Cuba e nos apoiava em tudo. De repente, a gente se viu sem ter o que comer, o que vestir, passando necessidade mesmo e o balé apareceu como uma alternativa para driblar a miséria que tinha se instaurado lá.

Ir aos espetáculos de dança é uma coisa. Seguir a carreira de bailarino, outra.

— Em todos os países sul-americanos o machismo impera. Pela lógica, a primeira coisa que falei para a minha mãe foi: “Não vou fazer balé! Isso é coisa de veado!”

Na queda de braço, a mãe venceu. Díaz foi para a escola de artes e lá percebeu que esse era, de fato, o seu caminho. Foi uma escolha que mudou drasticamente sua vida.

— Aquilo foi me tomando e comecei a levar a sério a partir do segundo ano de balé. Depois passei para a Escola Nacional de Artes. Apesar de todo o meu esforço, eu não tinha biotipo, o físico de um bailarino clássico. A diretora da escola não acreditava no meu trabalho, ela achava que eu tinha de ir para a dança folclórica ou dança contemporânea, que era o caminho “natural” dos negros em Cuba. Para ela, eu não me encaixava em alguns papéis.

Apesar do racismo, não se deixou abater, seguiu em frente, passou para várias provas e por um difícil processo de seleção para finalmente conseguir uma vaga no disputado Balé Nacional de Cuba.

— Cheguei lá, o cara que faz a programação dos ensaios, logo no primeiro dia, me disse: “Pô! Me falaram que vem outro negro aqui para a companhia! ”. Aquilo martelou na minha cabeça: lutei tanto para chegar ao Balé, que era o meu sonho, só para descobrir que não era isso que eu queria. O balé ainda é muito elitista e muitas vezes preconceituoso. 

Yasser desistiu do grupo tradicional, mas persistiu com o balé. Conseguiu uma vaga no Centro Pró-Dança de Cuba, companhia que promove diversos cursos internacionais, entre eles um muito famoso no meio da dança clássica, chamado Cubalé. E foi nesse curso que conheceu Vanessa.

Yasser e Vanessa: "Já sabia que ficaríamos juntos"

Yasser e Vanessa: "Já sabia que ficaríamos juntos"

Arquivo Pessoal

— Ela ficou morando oito meses em Cuba, com uma bolsa para fazer o curso. Logo começamos a namorar. Nem me preocupava mais com a dança, com nada. Meu foco era ela. Sabia que ficaríamos juntos.

Fim da bolsa, a separação.

— Foi terrível. Mas eu tinha uma turnê com a companhia pela Argentina e depois dançamos aqui no Brasil, em Salvador. A gente se reencontrou, mas eu não consegui ficar aqui porque poderia atrapalhar a companhia. Voltei para Cuba.

Na volta, Díaz foi até o consulado para tentar um visto. A ideia era vir para o Brasil como professor de dança e atuar na escola de balé de sua futura sogra. Mas as autoridades brasileiras não colaboravam com o sonho do jovem casal.

— Gastávamos uma fortuna de telefone. Conversávamos com todos os dias. Acho que minha sogra cansou – brinca – Ela ligou para a embaixadora do Brasil em Cuba e pediu: “Minha filha e esse rapaz estão apaixonados, querem ficar juntos. Por favor... Você tem filha?”
Depois do apelo, Díaz foi até a embaixada com o passaporte em mãos.

— Ela me disse: “Não faz nem três meses que você esteve no Brasil. Posso carimbar seu passaporte sem consultar o Itamaraty”. Foi o que ela fez. E eu vim — em definitivo.

Em fevereiro de 1997, ele aos 20 anos e ela aos 18 anos, se casaram.

— Dançamos juntos no Balé Stagium e depois no Balé da Cidade de São Paulo até ela machucar o tornozelo. Hoje, Vanessa atua como assistente de direção de José Possi Neto. Eu continuo no Balé, na companhia que é minha segunda casa, e não pretendo parar tão cedo. 

Cubano sofreu racismo, mas não desistiu da dança

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Eduardo Enomoto/R7