Grupo lança CD com 12 canções inéditas de Adoniran Barbosa

Músicos e pesquisadores acharam obra-prima do cantor paulista

Adoniran Barbosa morreu em 1982
Adoniran Barbosa morreu em 1982 Reprodução/CD

Os fãs de Adoniram Barbosa estão em festa. Nesta quarta-feira (15), será lançado o projeto Adoniran em Partitura: 12 canções inéditas.

Os documentos foram descobertos através de investigações de músicos e pesquisadores como Tomás Bastian e Ayrton Mugnaini Jr..

Fazem parte do pacote um CD e um livro. O Conjunto João Rubinato (nome verdadeiro de Adoniran) gravou o disco com as partituras originais do sambista, morto em 1982. Além disso, o grupo ainda convidou ex-parceiros de Adoniram para participarem das faixas. Entre eles estão Eduardo Gudin, Carlinhos Vergueiro e Osvaldinho da Cuíca (integrante dos Demônios da Garoa nos anos 60).

Já o livro relembra a trajetória artística do mestre, trazendo fotos e reportagens de época. E as partituras acompanham breves textos com informações sobre cada composição.

Conjunto João Rubinato: especialista em Adoniran
Conjunto João Rubinato: especialista em Adoniran Divulgação/Simone Ezaki

Tomás Bastian comemora a descoberta do tesouro nacional.

— É indescritível a emoção de trazer de volta à vida canções do maior ícone do samba de São Paulo que estavam esquecidas em suas partituras. Apenas lendo as letras, não é possível ter ideia de como será música. Então, foi nesse processo de ir juntando tudo que vimos nascer, uma a uma, todas as faixas desse álbum.

Para o festejar o livro-CD, a banda prepara shows gratuitos de lançamento em Jundiaí, Santo André e São Paulo.

O diretor do Conjunto João Rubinato, Tomás Bastian, conversou com o R7 e deu mais detalhes sobre a obra.

R7 — Como surgiu a ideia de fazer o projeto?
Tomás Bastian —
Faz oito anos que o Conjunto João Rubinato tem um trabalho de pesquisa e divulgação do lado menos conhecido da obra de Adoniran. Como se trata de um material disperso e pouco acessível, nossa investigação exige uma paciente garimpagem nas mais variadas fontes como catálogos, acervos, livros e pesquisadores.

R7 — E como vocês reuniram essas partituras?
Tomás Bastian —
Há alguns anos, o músico e pesquisador Ayrton Mugnaini Jr., nosso parceiro, nos apresentou duas partituras de Adoniran que nunca haviam sido gravadas. Nessa época, imaginávamos que ao todo haveria, no máximo, cerca de cinco músicas nessa situação. Foi somente nos últimos anos, quando concentramos esforços para reunir e catalogar a obra musical completa do Adoniran, que nos deparamos com todas as partituras que estão no disco-livro.

Adoniran é símbolo do samba paulistano
Adoniran é símbolo do samba paulistano Reprodução/CD

R7 — Qual foi a maior dificuldade dessa pesquisa?
Tomás Bastian —
Os principais livros sobre ele se referem a algumas dessas partituras, que estariam no Acervo Adoniran Barbosa. Mas como esse material não está aberto ao público há muitos anos, já tínhamos quase perdido a esperança de encontrá-las. Foi uma grande surpresa descobrir que todas essas partituras estavam desde sempre nas editoras que detêm os respectivos direitos autorais. Então, o mais difícil não foi encontrar as partituras, mas sim descobrir que se tratavam de músicas inéditas. As partituras não trazem em si a informação de que nunca foram gravadas. Para concluir que se trata de uma música inédita é preciso cruzar e analisar uma série de dados muitas vezes imprecisos, incompletos e até conflitantes.

Samba de Adoniran de 1970
Samba de Adoniran de 1970 Divulgação

R7 — Existe alguma raridade que não estava no manuscrito?
Tomás Bastian —
Há somente uma canção do disco-livro que não foi registrada em partitura: o samba Duas Horas da Madrugada, de 1970, parceria de Adoniran Barbosa com o maestro Hervé Cordovil. Essa música foi encontrada primeiramente na memória viva de Regina Cordovil, filha do maestro. E, pouco tempo depois, ouvimos uma gravação caseira do próprio Hervé cantarolando a composição ao piano. É uma verdadeira preciosidade reproduzida na última faixa do disco, carinhosamente batizada de “faixa-relíquia”.

R7 — O que a família do Adoniran achou do projeto?
Tomás Bastian —
Mantemos contato há alguns anos com a filha-herdeira de Adoniran, Maria Helena Rubinato, através de sua advogada. O projeto Adoniran em Partitura, assim como todo o nosso trabalho, foi muito bem-recebido por ambas. E, no ano passado, ele foi premiado pelo Edital do ProAC 2016 – Gravação de Álbum Inédito de Canção. Além da filha, temos contato próximo com o sobrinho do cantor, Sergio Rubinato, que nos últimos cinco anos participou de todas as nossas apresentações e recebeu com grande entusiasmo a notícia desse projeto.

R7 — Qual foi a emoção tocar uma dessas raridades?
Tomás Bastian —
É indescritível a emoção de trazer de volta à vida canções do maior ícone do samba de São Paulo que estavam esquecidas em suas partituras. Apenas lendo as letras, não é possível ter ideia de como será música. Então, foi nesse processo de ir juntando a letra e a melodia que vimos nascer, uma a uma, todas as canções desse álbum.

"É emocionante trazer de volta à vida as canções do Adoniran"
Tomás Bastian

R7 — E como foi entrar em estúdio com ex-parceiros do Adoniran?
Tomás Bastian —
Nada supera a alegria de contar com a participação de pessoas que conviveram intensamente com Adoniran em diferentes momentos de sua trajetória. É absolutamente maravilhoso para nós gravar ao lado de artistas como Esterzinha de Souza, de 88 anos. Ela trabalhou ao lado de Adoniran na Rádio Record nos anos 50. Também temos Carlinhos Vergueiro e Eduardo Gudin, que foram grandes amigos e parceiros de Adoniran no início dos anos 80. Isso sem falar do mestre Osvaldinho da Cuíca, ex-integrante dos Demônios da Garoa!

Trem das Onze é um clássico de Adoniran
Trem das Onze é um clássico de Adoniran

R7 — Você se deparou com documentos praticamente esquecidos. A cultura brasileira poderia ser melhor preservada e divulgada?
Tomás Bastian —
Adoniran Barbosa é considerado o maior ícone do samba de São Paulo, com sucesso nacional e até internacional. Trem das Onze, por exemplo, foi traduzida para os mais diversos idiomas. No entanto, a sua obra ainda é muito pouco conhecida. Isso é gritante no que se refere às suas outras facetas (ator de rádio, cinema e TV, construtor de brinquedos), mas acontece também com a sua obra musical. Dezenas de canções que foram registradas em disco permanecem até hoje inacessíveis ao público. O que dizer então de músicas que nem sequer chegaram a ser gravadas? Por isso, penso que trazer a público 12 canções inéditas de um artista da importância do cantor não só preenche uma antiga lacuna em sua obra musical como representa uma contribuição significativa para a história da música brasileira.

R7 — Quais são os próximos planos do grupo?
Tomás Bastian —
Agora, nosso principal objetivo é circular com o show Adoniran em Partitura e fazer com que o disco-livro chegue aos quatro cantos do País. Quanto ao show de lançamento em São Paulo, no dia 15 deste mês (quarta-feira), é importante ressaltar que será na Casa de Francisca, que foi o antigo prédio da Rádio Record, no qual ele trabalhou por mais de 20 anos. O show acontecerá exatamente no mesmo auditório onde, há 60 anos, o radioator Adoniran se apresentava toda semana ao lado da cantora Esterzinha de Souza. E ela ainda estará com a gente! Além disso, como nossa pesquisa é permanente, já temos planos para um próximo projeto focado no Adoniran radioator.

O Conjunto João Rubinato está vendendo o livro-CD pelo site da banda