Pop Aos 83 anos, Germano Mathias é um herói do samba: "Estou vivo!"

Aos 83 anos, Germano Mathias é um herói do samba: "Estou vivo!"

Compositor paulista acaba de lançar dois CDs de uma vez só

  • Pop | Daniel Vaughan, do R7

Germano posa na Brasilândia

Germano posa na Brasilândia

Daniel Vaughan/R7

Aos 83 anos, Germano Mathias é o maior representante vivo do samba paulistano.

Apesar de trabalhar na independência e estar praticamente esquecido pela grande mídia, Germano acaba de lançar dois CDs de uma tacada só. O cantor, que ainda faz shows pelo País, comemora mais de 60 anos de estrada em plena forma.

Para falar sobre a carreira, o eterno malandro recebeu a reportagem do R7 em casa. Vestido a carater, ele tirou do armário o visual montado pelo velho chapéu, a camisa estampada e o sapato estilizado.

Entre as duas novidades fonográficas do artista, está o CD de forró pé de serra, com o parceiro Manu Lafer. Já o outro disco, Sambas de Morro, registra 12 faixas inéditas.

— Por incrível que pareça, eu ainda vendo discos. Dizem que sou uma aberração! (risos)

Morador de um CDHU na Brasilândia (ZN), ao lado da filha e da mulher, Germano pouco se importa por não ser rico e famoso como mereceria um artista da sua importância.

— O que eu posso fazer? Estou vivo e cantando bem... E eu ainda gravo porque tem muita gente que gosta, apesar de ninguém ler sobre isso nos jornais. Mas não posso me queixar, pois a vida de músico ainda dá para "contrabalancear" o orçamento. (risos) Há cada três meses cai um dinheirinho de royalties na minha conta, me apresento aqui e ali... Vou vivendo.

"Eu ainda vendo muitos discos... Dizem que sou uma aberração!"

Germano Mathias

Germano lançou dois CDs

Germano lançou dois CDs

Daniel Vaughan, do R7

Mesmo sendo extremamente produtivo, o rei do samba sincopado desabafa sobre as dificuldades para divulgar os trabalhos.

— Não sei o que acontece, mas não consigo promover o que eu faço. Será que estou velho demais para aparecer na TV? Só sei que eu loto os shows! Porém, posso fazer o maior sucesso que ninguém fala sobre isso.

Germano começou a carreira no dia 26 de outubro de 1955, como ele mesmo informa com precisão. O então rapaz ficou famoso nos shows de calouros das rádios pelo jeito teatral e humorístico de interpretar as canções. Até hoje, Germano canta fazendo caretas, gesticulando e soltando piadas para o público. Ele também gosta de imitar o som do trombone com a boca — instrumento que dá tempero especial no samba de gafieira.

O primeiro sucesso Minha Nega na Janela veio um ano depois da estreia profissional. Apesar de ter se tonado hit regravado até por Gilberto Gil nos anos 70, o compositor não canta mais essa canção. Ele tem medo de sofrer represálias de associações antirracismo e feministas por causa de trechos polêmicos da letra como "êta nega tu é feia, que parece macaquinha" e "dei um murro nela".

— A composição ficou racista, creio eu, então decidi abandoná-la. Antigamente, os negros não ligavam para esse tipo de piadas, até davam risada, mas agora temos movimentos da consciência negra de olho nisso... Mas eu quero deixar bem explicado que compus a música pensando em uma mulher específica e isso não tem nada a ver com raça ou cor. É apenas uma brincadeira. Eu também canto diversas obras sobre a traição da mulher contra o homem. Mas será que isso é machista hoje em dia? Não sei...

"Quem curte samba tem sensibilidade musical"

Germano Mathias

Longe das músicas politicamente incorretas, o cantor continua investindo em composições inspiradas em atualidades. Sentado no sofá do pequeno apartamento, cercado de dicionários, o artista faz palavras cruzadas e assiste à TV para matar o tempo ocioso.

— Eu gosto de falar do cotidiano. Nesse novo disco eu canto sobre a Lava Jato, mercadorias chinesas e até sobre uma notícia de um crime passional que eu vi na TV. Mas quem ama, não mata!

O sapato faz parte do visual do malandro

O sapato faz parte do visual do malandro

Daniel Vaughan/R7

Bares e passeios noturnos não estão mais no cotidiano do velho malandro. E apesar do passado festeiro em batucadas pela comunidade, Germano diz que a cidade se tornou perigosa demais.

— Eu só saio para trabalhar. A diversão não é mais como antigamente... Agora, eu fico com medo da violência. Você não pode mais andar sozinho em lugar nenhum. Conheço todos no bairro, tenho muitos amigos, mas está arriscado para todo mundo.

Germano curte palavras cruzadas

Germano curte palavras cruzadas

Daniel Vaughan/R7

Germano também relembra que entrou na vadiagem por opção, pois era de família abonada. Mesmo assim, ele saiu de casa para ganhar a liberdade de curtir a boemia.

— Eu não era pobre. Na época de estudante, não tinha dificuldades financeiras, pois era filhinho de papai. Daí, eu abandonei tudo para viver na malandragem. Eu curtia as batucadas pela cidade, frequentava os bares, ruas e gafieiras. Eu procurei ter minha liberdade quando fui morar sozinho. E sempre me virei muito bem sem precisar roubar. Cada um é o arquiteto do seu destino.

Não só a malandragem se transformou com o tempo, como também o som que ecoa da vizinhança do compositor. A música que faz a cabeça da juventude da periferia não agrada mais o batuqueiro.

— Eu respeito os outros estilos, mas eu não curto o que está na moda. Por exemplo, eu não sinto nada pelo funk. Acho horrível! Não tem melodias nem letras boas. Veja bem, eu faço uma crítica social com bastante harmonia e poesia. Quem curte o samba tem sensibilidade musical. Nada contra o funk, mas é ele lá e eu aqui. (risos)

"Nada contra o funk, mas é ele lá e eu aqui"

Germano Mathias

E não são apenas as novidades musicais que são criticadas por Germano. Quando o assunto é o Brasil, ele é radical.

— O cara que nasce aqui e só gosta de gringo é um falso brasileiro. Eu sempre amei o samba. Quando eu era jovem, eu ouvia muitas coisas nas rádios, pois ainda não havia TV. Isso fez com que eu aprendesse o que é música brasileira autêntica, original...

Aos 83 anos, Germano ainda lota shows

Aos 83 anos, Germano ainda lota shows

Daniel Vaughan/R7

Hoje, Germano é um sobrevivente que passou por dezenas de modismos. Ele dribla o preconceito que recai sobre o artista octogenário fazendo o que mais gosta: cantar. E, claro, o sambista deveria ser muito mais reconhecido.

No dia 25 de setembro, o compositor será agraciado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde receberá uma condecoração como ícone do samba paulistano.

— Estou muito honrado com isso. Creio que eu sou o último dos grandes nomes daquela época clássica, então nada mais justo. Mas no dia da homenagem eu vou colocar um terno, não vou vestido de malandro, não... (risos)

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