Adoro Cinema Game of Thrones 8x06: Fim amargo escancara os problemas de temporada irregular

Game of Thrones 8x06: Fim amargo escancara os problemas de temporada irregular

Episódio final da série não agradou.

Episódio final da série não agradou.

ATENÇÃO! Contém SPOILERS do episódio final de Game of Thrones.

O episódio final de Game of Thrones jamais iria agradar a todos, quaisquer que fossem os acontecimentos. Partindo deste princípio, sabemos que, de qualquer forma, as pessoas iriam discordar. Mas será que este é um episódio de TV que vai dividir o público em fortes opiniões contrárias, gerando debates intermináveis entre aqueles que amaram e aqueles que odiaram? Provavelmente não. Mas seria melhor se o fizesse.

Intitulado “The Iron Throne”, o episódio dirigido e escrito por David BenioffD.B. Weiss não falha necessariamente como uma hora de televisão (ou, neste caso, 1h20). Fosse qualquer outro episódio, no meio de uma temporada, cairia perfeitamente entre os capítulos medianos, daqueles que são pouco brilhantes mas não chegam a ser ofensivos. O grande problema é que esta não é a impressão que deveria ficar no episódio final da série mais popular da televisão.

Os momentos finais de Game of Thrones começam com Tyrion (Peter Dinklage) andando pelos escombros do que restou de Porto Real. Os minutos iniciais do episódio são bem silenciosos, refletindo o ar solene e esvaziado que ficou na cidade após a destruição. Quando Jon (Kit Harington) encontra Verme Cinzento (Jacob Anderson) executando soldados Lannister “a mando de sua rainha”, não há mais o que fazer para Jon a não ser confrontar Daenerys (Emilia Clarke).

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O clima, é claro, não poderia ser mais sombrio. A Fortaleza Vermelha está parcialmente destruída, mas exibe uma gigante bandeira com o estandarte dos Targaryen enquanto Daenerys faz um discurso utópico e vazio apenas para os seus soldados — de onde saíram tantos deles depois das batalhas em Winterfell e em Porto Real, inclusive, jamais saberemos. Tyrion abandona o cargo de Mão da Rainha e é sentenciado à prisão. Quando Jon o visita, acaba convencendo-o de matar Daenerys para o bem do reino, usando para isso o argumento de que Arya (Maisie Williams) e Sansa (Sophie Turner) jamais iriam ajoelhar para Daenerys e, por isso, poderiam também ser mortas.

Por mais crua que seja a construção para o momento, a cena em que Jon mata Daenerys é incrivelmente bonita — pouco se pode reclamar da fotografia, da direção e da direção de arte de Game of Thrones em geral. O enquadramento da cena em que ele segura o corpo dela com a espada atravessada tem flashes assombrosos de Azor Ahai (algo que não tem significado algum para a série, mas faz pensar na hipótese de ter uma consequências ou simbolismos mais densos caso aconteça nos livros de George R.R. Martin), e a cena anterior, quando Dany entra na sala do Trono, compensa a visão da Casa dos Imortais na 2ª temporada.

A fúria de Drogon também acaba compensando, e à sua maneira também é simbólica: o fato de ele destruir o Trono de Ferro é uma compensação sobre a própria forma como o Trono foi forjado, quando Aegon Targaryen o construiu com as espadas de todos os inimigos que derrotou com a ajuda de seu próprio dragão, Balerion. O fato de ninguém se sentar naquele Trono de Ferro, no fim das contas, faz sentido, e Drogon foi o único inteligente o bastante para entender que foi o Trono que matou sua mãe, e que aquela cadeira feita de mil espadas nunca fez bem a ninguém. Bom garoto, Drogon.  

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Mas, então, para que todos os personagens tenham seus finais, Game of Thrones faz o que tem feito de melhor ultimamente: corre com o roteiro.

Em retrospecto, finalizar a série em duas temporadas reduzidas talvez tenha sido a pior decisão recente da história da televisão. O resultado do que “The Iron Throne” faz com esta série não é algo intrínseco a este episódio, é apenas a consequência de duas temporadas em que todo o desenvolvimento foi claramente negligenciado a fim de simplesmente colocar os personagens nos locais em que eles deveriam estar. É por isso que, por exemplo, Bran Stark (Isaac Hempstead-Wright) foi transformado em basicamente um robô cuja principal função era a de explicar os acontecimentos que os roteiristas não eram capazes de incluir na história — os flashbacks de Rhaegar e Lyanna, por exemplo. Brandon sempre esteve destinado a ser um personagem importante na história de George R.R. Martin, mas a versão televisiva de Benioff e Weiss deu ao público um Bran que é mais um artifício de narrativa do que um personagem de fato.

Justamente por isso, o desfecho da história política de Westeros parece roubar do espectador algo que ele deveria ter: o direito de vibrar com qualquer decisão final que viesse do conselho formado pelos principais Lordes dos Sete Reinos. Os saltos de lógica vão desde o fato de Verme Cinzento não ter matado Jon imediatamente após descobrir sobre Daenerys até o fato de que, de repente, Tyrion (àquela altura, ainda um prisioneiro, por menos sentido que tudo faça) é quem está à frente tomando decisões e sugerindo reis.

No fim das contas, Bran é quem decidiu não impedir um genocídio de acontecer simplesmente porque ele sabia que aquilo o levaria ao Trono de Ferro. Ou pelo menos é o que fica subentendido. Dentre todas as vezes em que a série falhou com a obra original, a negligência com a mitologia (ou seja, com os elementos mágicos, as profecias e as criaturas misteriosas e complexas como os lobos gigantes e até mesmo os dragões e Senhora Coração de Pedra) é algo que faz muita falta nesta jornada final, e isso fica óbvio. De uma forma ou de outra, os personagens principais estão ali. Jon, Tyrion, Sansa, Arya, Bran, (durante boa parte) Dany fazem parte da conclusão da história. Mas tudo em volta deles soa completamente esvaziado de sentido, seja porque os acontecimentos no entorno deles nas duas últimas temporadas foram completamente apressados, seja porque qualquer laço emocional construído com esses personagens foi esticado à exaustão, a ponto de parte do público ter ficado exausto mesmo daqueles que gostava.

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Apesar de tudo, os encerramentos são coerentes; Jon Snow sempre esteve destinado a ficar no norte. Talvez não necessariamente na Muralha, agora que não há muito o que proteger, mas junto com os selvagens. Sansa sendo coroada como rainha do norte também é uma conclusão para a jornada da personagem. Ainda que toda a entrega seja anticlimática, o breve diálogo entre ela e Jon, em que ele reconhece que ela será uma rainha muito melhor, acaba sendo uma recompensa. Arya nunca teve lugar em Westeros.

Para o bem ou para o mal, Game of Thrones chega ao fim em um episódio que pouco faz para ser memorável, mas talvez tenha algo a dizer colocando no poder alguém que não fez absolutamente nada para chegar até lá ou provar ser digno do posto.

Mas, como a série disse — e a internet repetiu zilhões de vezes —, se você achou que isso tinha um final feliz, não estava prestando muita atenção. Era de se esperar, pelo menos, que tivesse um final que arrancasse qualquer emoção. Não foi o caso.

Podemos concordar que Bran será um péssimo rei?

Considerações Finais

Brienne completando o artigo sobre Jaime Lannister no Livro dos Irmãos foi um desfecho bonito, mas teria sido interessante que o desfecho da personagem tivesse sido sobre ela, e não sobre o homem que ela amou e que a abandonou. Hã, hã, legal a referência às Crônicas de Gelo e Fogo escritas por Sam. Legal, D&D. Muito legal! Inteligente demais. Muito sutil. Bronn é o Lorde de Jardim de Cima, protetor da Campina e Mestre da Moeda. Mestre. Da. Moeda. O verdadeiro vencedor é o Fantasma, que não morreu e ainda ganhou carinho. Bom garoto, Fantasma. 

PS.: Acompanhar Game of Thrones foi uma jornada inegavelmente divertida e emocionante. Com a série, fui de fã a crítica, e foi ela que me levou a conhecer os livros e a fazer alguns amigos pelo caminho. Que jronada! O seu encerramento é o fim de um capítulo da história da televisão, mas também o início de outro. Por isso, muito obrigada por fazer este percurso com o AdoroCinema, e por acompanhar nossos textos! A gente reclama de D&D, mas é de coração.

O que você achou do episódio?

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