Cinema "Entrei na pornochanchada porque quis", orgulha-se Nicole Puzzi

"Entrei na pornochanchada porque quis", orgulha-se Nicole Puzzi

Atriz vai se dedicar a palestras sobre sexualidade

"Entrei na pornochanchada porque quis", orgulha-se Nicole Puzzi

Nicole Puzzi é até hoje lembrada como uma musa do cinema

Nicole Puzzi é até hoje lembrada como uma musa do cinema

Reprodução/Instagram

Aos 59 anos, Nicole Puzzi sabe que ainda tem munição de sobra quando o assunto é sensualidade. Segundo ela, a sensação é a mesma de quando tinha 17, época em que estrelou seu primeiro longa na pornochanchada, Possuídas pelo Pecado, de 1975. Os filmes do gênero eram muitas vezes confundidos com produções de sexo explícito, no entanto, tinham apenas cenas eróticas. Sua maioria era produzida na chamanda Boca do Lixo, antigo polo cinematográfico da região central de São Paulo.

Filha de humildes fazendeiros no Paraná, Nicole Puzzi relembra o que o pai disse a ela quando ingressou na carreira de filmes adultos: "filha, você vai quebrar a cara, e se isso acontecer, você volta, porque eu sou seu pai e nunca vou te abandonar". Já a mãe, uma italiana um tanto enérgica, levantou a voz e assegurou que daria uns tapas na filha caso ela insistisse no assunto.

Quarenta anos se passaram, e agora, após ter se tornado um dos grandes ícones de sua época, a musa Tereza Nicole Puzzi Ferreira se prepara para estrear como palestrante, dando aulas e conselhos sobre sexualidade.

R7 — Com um currículo recheado de filmes adultos e boa predisposição ao sexo, o que mais precisa aprender para ser uma palestrante no assunto?

Nicole Puzzi — O fato de ser uma atriz e de não ter medo de falar para um grande público já me garante 50% do caminho. No entanto, o que falta é técnica e observação. Fiz diversos cursos, inclusive de stand-up para ajudar a ficar antenada com o humor atual. O humor é extremamente necessário para dialogar com as pessoas. Da mesma forma estou escutando os “medalhões”, como Leandro Karnal, Mário Sergio Cortella, Zé Roberto Guimarães. É uma coisa muito séria da minha parte.

R7 — Está mais fácil falar de sexo nos dias de hoje do que no passado?

Puzzi — Com certeza, naquela época não se falava muito, mas eu já era atrevida e muito ousada. Resolvi que ia fazer filmes adultos e pronto. Não entrei na pornochanchada por necessidade. Entrei porque quis. Eu era roqueira, vinha de um pensamento totalmente hippie e achava que tinha que infringir as regras.

"Era uma afronta à sociedade estabelecida, uma afronta à minha família"
Atriz em "Possuídas pelo Pecado"

Atriz em "Possuídas pelo Pecado"

Reprodução

R7 — Ficou nervosa quando estrelou o primeiro filme?

Puzzi — Eu adorei! Adorei trabalhar como atriz. Na verdade, não ficava totalmente nua. O sexo era todo simulado, não tinha nada de verdade, até porque nunca consegui transar com quem eu não gosto. E ainda tinha um baita cachê! Pensava comigo mesma: "sensacional: estão me pagando para fazer uma coisa que amo fazer". Nunca fui hipócrita, sempre fui uma pessoa do bem e não tinha que provar nada para ninguém. Eu era uma pessoa liberada sexualmente.

R7 — Como era ser uma estrela da pornochanchada?

Puzzi — Para mim era maravilhoso, porque era uma afronta à sociedade estabelecida, uma afronta à minha família. Achava ridículo as pessoas que não curtiam a nudez e o próprio corpo. Me sentia realizada.

R7 — E como reagiram seus pais?

Puzzi — Meu pai sofreu muito, minha mãe era italiana, queria me bater quando soube que fiz o primeiro filme. Mas não me batia, eu não apanhava. Agora, meu pai, ele chorou. Ele era uma pessoa extremamente doce. Um homem sábio. Ele me disse: "filha, você vai quebrar a cara, e, se isso acontecer, você volta, porque eu sou seu pai e nunca vou te abandonar". Ele e minha família inteira, nunca ninguém assistiu a um filme meu. Mas também nunca houve uma palavra de repressão.

R7 — O público mais novo talvez não saiba que em Ariella (1980) você protagonizou um beijo na atriz Christiane Torloni. Como foi?

Puzzi — Foi natural, normal, profissional, como tudo que fiz na minha carreira. Eram todos beijos técnicos, não tem como não ser. Nunca fui desrespeitada num set de filmagem. Nunca ninguém me beijou de verdade nem se aproveitou de alguma forma ou de outra.

"Cheguei a ser agredida fisicamente duas vezes. Hoje, continuo pagando esse preço também"
Nicole Puzzi e Christiane Tornoli em cena de "Ariella"

Nicole Puzzi e Christiane Tornoli em cena de "Ariella"

Reprodução

R7 — Como é ser uma referência da pornochanchada nos dias de hoje?

Puzzi — Hoje em dia eu sou cult, mas na época, os intelectuais falavam mal da pornochanchada. Determinados atores não se misturavam com a Nicole Puzzi. Alguns diretores achavam: "ah, já que é a Nicole Puzzi eu posso comer fácil". E o povo na rua era preconceituoso também. Cheguei a ser agredida fisicamente duas vezes. Hoje, continuo pagando esse preço também, mas resolvi defender minha classe, a classe que eu amo.

R7 — Soube que se “refugiou” na Europa. O que aconteceu?

Puzzi — Passei por uma depressão no final dos anos 1990, início dos anos 2000. Fui para a Itália, fiquei dois anos e lá percebi que eu estava aceitando a opinião preconceituosa das pessoas. Os italianos, que já tinham visto meus trabalhos, me tratavam superbem, ainda mais depois que souberam que eu havia trabalhado com Marcello Mastroianni [ator de cinema italiano]. Ali eu era respeitada. No meu País, as pessoas me xingavam. Foi quando caiu a ficha e vi que estava certa. As pessoas mal resolvidas tentavam me fazer ter vergonha daquilo que era minha missão: trabalhar com a sensualidade.

R7 — E o que o sexo representa para você?

Puzzi — Faz parte do meu trabalho, da minha profissão, do meu dia a dia. Não sou compulsiva, porque sei que posso ficar muitos dias sem. Fico, porque às vezes não encontro o cara que eu quero. E às vezes o cara que me quer eu não quero.

R7 — Já foi para cama por dinheiro?

Puzzi — Nunca porque nada me compra. Eu não tenho preço. Às vezes saio com umas pessoas estranhas, homens, sempre. Quem olha deve achar que estão me pagando. Eu não consigo, não tenho capacidade de me deitar com uma pessoa que eu não goste. Vou aproveitar para contar uma coisa que normalmente não conto: a maioria dos homens falham comigo. Eles costumam vir com uma expectativa de tentar ser mais macho comigo, e aí não rola. Deve ser uma questão psicológica.

Rapidinha com Nicole Puzzi

1 - Qual a parte do corpo que mais atrai você em outra pessoa?

A boca e a voz.

2 -Você tem fotos ou vídeos comprometedores no meu celular?

Não. Eu não tiro foto nua, não me permito que tirem foto minha naquele momento. Não me diz nada, não me dá prazer. Podem hackear meu celular que não vão encontrar nada.

3 - Que erro você consertaria do seu passado?

Eu teria prestado mais atenção nas invejas das pessoas.

4 - Quem foi a pessoa que você mais prejudicou na vida?

Eu mesma.

5 - Quando seu orgulho deixou você na mão?

Quando achei que era estrela, e depois, nesse momento, percebi que eu não era eu. Era meu ego.

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