Com 20 anos de banda, Detonautas se inspira no sertanejo em novo CD

Com músicas mais românticas, projeto quer atingir um novo público

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Em 2017, o Detonautas completa 20 anos de carreira. A marca é comemorada com o lançamento de um novo disco de estúdio, VI.

O projeto mostra um lado mais romântico da banda de Tico Santa Cruz, que decidiu por arranjos mais leves e com menos distorção.
O vocalista explica que essa orientação foi influenciada pelo atual momento do País e as adversidades políticas.

— Já vivemos grandes problemas sociais, então quis passar boas mensagens, sem focar diretamente em letras panfletárias. Não precisamos disso no momento.

Em entrevista ao R7, Tico explica como foi a recepção desse novo CD, lamenta o fim de bandas contemporâneas ao Detonautas e explica como a politização nas redes sociais afeta a carreira.

R7 — Você está bastante romântico nesse disco. Por que a mudança?
Tico Santa Cruz — Um amigo disse que estou vivendo uma fase neo hippie. E faz sentido. Afinal, muitas bandas com mensagens positivas surgiram durante a Guerra do Vietnã. Usamos mensagens políticas com afetividade nesse projeto. A polarização tem nos levado a caminhos perigosos e eu não queria representar isso no CD.

"O rock sempre teve muita música romântica como instrumento para atingir as massas"
Tico Santa Cruz

R7 — Como os fãs mais velhos receberam essa mudança?
Tico — A maioria entendeu, porque a banda sempre teve baladas nos discos. Aliás, nem dá para levar em conta as acusações de que estamos deixando de fazer rock. O rock sempre teve muita música romântica como instrumento para atingir as massas. Todo mundo fez isso. De Beatles a Red Hot, isso é sempre foi uma realidade.

R7 — E esse é o interesse de vocês nesse momento? Atingir um novo público?
Tico — Sim. Para isso, fui buscar inspiração no sertanejo. Foi o estilo que me influenciou a ser mais romântico e popular. E notei que podíamos despertar o interesse desse público também, mas sem perder nossa essência. E tem dado certo. Desde o início da divulgação do disco, triplicamos o número de seguidores no Spotify, de 100 para 300 mil. É algo relevante, já que o CD anterior passou despercebido e não causou impacto algum.

Tico acredita que o rock precisa ser popular pra ser de massa
Tico acredita que o rock precisa ser popular pra ser de massa Divulgação

R7 — Vocês estão com 20 anos de carreira, mas muitas bandas contemporâneas ao Detonautas desistiram. Como vê isso?
Tico — Somos heróis da resistência. O Tihuana parou, o NX parou. E nós continuamos, apesar da desistência de muita gente que surgiu no fim dos anos 90. O rock nacional hoje padece de síndrome de underground, né? Não temos um grande ícone nas bandas mais novas e o estilo também não dialoga com as massas. Não tem como ser popular assim. E acho até que é geral isso. Lá fora, os principais nomes do rock são Dave Grohl e Josh Homme, que são astros dos anos 90. Se o vocalista do Arctic Monkeys passar ao meu lado, nem reconheço. 

R7 — Você acredita que existe chances disso mudar?
Tico — A verdade é que o rock virou um estilo conservador, elitista e careta. Se isolou e não dialoga com outras vertentes. O Rock In Rio mesmo só deu espaço para bandas muito antigas. Nada contra, sou fã dos caras, mas não dá para depender desses ícones dos anos 80 eternamente. Uma hora eles também vão parar. E não haverá renovação. E isso me incomoda. Porque muitos talentos nunca serão conhecidos por pura e simples falta de oportunidade e apoio. E o rap também está cada vez mais forte. Hoje o jovem quer ser o Jay Z.

R7 — O Detonautas surgiu em uma sala de chat e hoje você é um influenciador digital. O seu posicionamento político nas redes te atrapalha profissionalmente?
Tico — Fui aos seis dias do Rock In Rio 2017 e fiquei todos no meio do público e não em camarote. Não fui hostilizado por ninguém. É preciso separar a bolha de ódio que existe na internet do que acontece de fato no mundo real. Essa bolha de ódio é que gera e atrai violência. Mas no mundo real é possível conviver com as diferenças.