Pop Fãs superam timidez, preconceito e luto com ajuda dos cosplays

Fãs superam timidez, preconceito e luto com ajuda dos cosplays

Ao se transformar em personagens de filmes, desenhos e séries, eles se divertem e ganham forças para enfrentar as mais variadas dificuldades 

cosplay

A atriz Mariana vestida como Arlequina e a maquiadora Lani como Coringa

A atriz Mariana vestida como Arlequina e a maquiadora Lani como Coringa

Felipe Gladiador/R7

Cada pessoa lida com os inúmeros problemas que surgem na vida de suas próprias maneiras, certo? No entanto, algumas situações difíceis diferentes podem ser encaradas de formas semelhantes. 

Uma advogada, uma maquiadora, um figurinista e uma atriz que estavam na Comic Con Experience 2018, em São Paulo, compartilham algo que os ajudou a superar dificuldades pessoais: os quatro são cosplayers. 

Tchau, timidez!

Vestida como o vilão Coringa, a maquiadora Lani Fox, de 28 anos, explica que o cosplay é mais que apenas uma fantasia.

— Cosplay é interpretação, ter amor pelo personagem, não é só vestir uma roupa. É você acreditar que é aquela pessoa. E isso traz uma confiança incrível. Eu me sinto mais confiante, eu era mais tímida.

Interpretando a vilã Arlequina, a atriz Mariana Bof Irigonhê, de 26 anos, fala sobre as descobertas que fez sobre si mesma por conta do cosplay.

— A cada personagem que você faz, você trabalha algo que talvez nem soubesse que tinha dentro de você. Cada personagem me ajudou de alguma maneira na minha própria aceitação.

A advogada Helchi Helis vestida como Cersei

A advogada Helchi Helis vestida como Cersei

Felipe Gladiador/R7

Lidando com o luto

Quando a advogada Helchi Helis, de 25 anos, começou a fazer cosplays, o resultado foi o mesmo que para Lani e Mariana, a superação da timidez. Mas em 2018, após um momento muito complicado, fazer cosplay ganhou outra força para ela.

— O cosplay me ajudou a interagir mais no começo. Atualmente, como a minha mãe faleceu em maio, fazer cosplay me ajudou muito porque foi nisso que eu foquei para ficar bem. Pensar nos cosplays me tirou bastante tempo que eu usaria para pensar em coisas tristes e problemas, foi a minha saída para lidar com o luto. Os amigos são essenciais nesse momento, mas o cosplay teve uma grande importância. Se não tivesse o cosplay, eu nem sei como eu estaria agora.

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Para Helchi, que estava vestida como a Cersei, da série Game of Thrones, a CCXP sempre trouxe ótimos momentos com sua mãe, que era a criadora de todos as suas fantasias.

— Os cosplays desse ano já estavam prontos quando ela faleceu, mas eu guardei um que vou usar no ano que vem. Foi o último cosplay que ela fez e vou deixar para 2019 como uma homenagem. 

Para a psicóloga Laís Mendes, um hobby pode influenciar positivamente na reconstrução da vida.

— Quando acontece uma perda importante, parece que nada mais faz sentido. A perda é eterna, mas o luto não. A partir do momento que o indivíduo identifica algo que dê uma satisfação em fazer ou participar, como no caso do cosplay, consegue-se desenvolver novos papeis e reorganizar as coisas, voltando a ter motivação e ressignificando a perda, retomando sua autoconfiança.

O figurinista Maurício como Cersei

O figurinista Maurício como Cersei

Felipe Gladiador/R7

O poder do cosplay

Quem também escolheu a personagem Cersei na CCXP 2018 foi o figurinista Maurício Somenzari, de 32 anos, que é tetracampeão mundial de cosplay. Ele fez seu primeiro cosplay há 17 anos e conta que sentiu o poder nessa arte desde o começo.

— Acho que foi uma coisa libertadora. Eu sempre quis trabalhar com moda, mas minha família era muito restritiva, então eu não poderia escolher essa carreira. O cosplay surgiu na minha vida como um escape, era uma oportunidade de extravasar essa vontade de trabalhar com tecidos, já que eu não poderia cursar isso numa faculdade.

Anos mais tarde, Maurício acabou fazendo a sonhada faculdade e hoje produz figurinos para filmes, séries e, claro, para seus já famosos cosplays.

— Eu sofri bastante preconceito quando era mais novo, eu me importava muito com a opinião dos outros, mas o cosplay me trouxe tantas oportunidades. Eu conheci 15 países por conta dos cosplays e sou a pessoa com mais títulos mundiais na categoria. Então agora eu não me importo mais. Você pega isso com o tempo. O lado positivo é muito maior que o negativo.

Fila se formou por fotos com Mariana e Lani

Fila se formou por fotos com Mariana e Lani

Felipe Gladiador/R7

Para a atriz Mariana Bof Irigonhê, os cosplays trazem mesmo poder. 

— Eu sinto esse poder quando estou vivendo algum personagem. A Mariana pode ter vergonha, ser tímida, mas a Arlequina não é assim. Então eu me sinto um mulherão, eu sinto que eu posso tudo.

A psicóloga Laís Mendes explica que existe uma conexão direta entre o cosplay e como aquela pessoa se enxerga. 

— O cosplay pode ser interessante para ajudar as pessoas com questões relacionadas a autoestima. Quando a pessoa não se identifica com algo e não se sente pertencente a determinado grupo, o cosplay surge com a sensação de remodelar a identidade, traz essa sensação de pertencimento.

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Helchi opina que muito do tal poder dos cosplayers está na união entre eles. 

— É uma comunidade muito unida, nós criamos amizades, nos apoiamos demais. Quem não é desse meio pode até julgar, dizer que é perda de dinheiro ou de tempo, mas qualquer hobby pode passar essa impressão. Quem vai a um show ou ver um jogo de futebol também não vai ter um retorno daquele dinheiro que gastou, assim com um cosplayer que gastou com sua roupa, mas em todos os casos a pessoa pode ganhar coisas que dinheiro nenhum paga. 

Helchi agora quer costurar

Helchi agora quer costurar

Felipe Gladiador/R7

Sempre em frente

Com uma fila enorme se formando para tirar fotos com a Arlequina e o Coringa, Mariana fala sobre a motivação que recebe quando se fantasia. 

— A gente vê a empolgação da galera e isso nos dá energia para continuar investindo, trabalhando, dando duro pra montar um cosplay. É para eles que a gente faz, por essa alegria deles que a gente segue em frente. 

Helchi termina com um agradecimento para a mãe e diz qual é seu próximo passo no mundo cosplayer.

— Eu só quero agradecer a ela por sempre ter me incentivado. Ela não entendia a maioria das coisas dos meus cosplays, mas ela sempre ia, assistia mil vezes a série ou o filme e fazia a roupa. Ela nunca me desestimulou, muito pelo contrário. Ela adorava fazer as roupas para mim. Agora eu vou aprender a costurar para fazer os meus próprios cosplays, não quero parar. 

Veja alguns dos cosplays mais criativos dos primeiros dias

Confira o serviço da Comic Con Experience 2018
Quando:
De quinta-feira (6) até domingo (9)
Onde: São Paulo Expo - Rodovia dos Imigrantes, km 1,5
Horários: Quinta e Sexta (12h - 21h), Sábado (11h - 21h) e Domingo (11h - 20h)
Preços: A partir de R$ 109,99 (não há mais ingressos para sábado)
Ingressos: Agora apenas na bilheteria, aberta todos os dias de evento