Música Bula, com ex-Charlie Brown, lança CD: 'Missão de seguir em frente'

Bula, com ex-Charlie Brown, lança CD: 'Missão de seguir em frente'

O guitarrista Marcão Britto, que também assumiu o posto de vocalista da banda santista, diz que tudo surgiu de forma natural, pelo amor à música

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A banda Bula posa no Emissário Submarino, em Santos

A banda Bula posa no Emissário Submarino, em Santos

Daniel Vaughan/R7

A banda Bula está prestes a lançar o segundo disco de estúdio. Realidade Placebo, que já tem três singles disponíveis nas plataformas digitais, chega completo no dia 12 de abril.

Ex-guitarrista do Charlie Brown Jr., Marcão Britto também assume os vocais na Bula. Ele celebra o atual momento ao lado dos parceiros Pinguim Ruas (bateria), Lena Papini (baixo) e André Freitas (guitarras).

— Isso não é apenas uma banda, é uma missão de seguir em frente. O grande motivo de fazer música é compartilhar e dividir isso com os fãs. Toquei por muitos anos com o Charlie Brown, mas a Bula aconteceu de forma espontânea.

André Freitas concorda com o amigo vocalista, espantando qualquer tipo de comparação com o CBJR que possa vir a acontecer.

— O disco foi feito realmente de coração. E a Bula não quer substituir nada, pois surgiu naturalmente.

Para saber mais sobre o disco, o R7 encontrou a Bula em Santos, cidade natal do grupo. Sentados em um boteco em frente da praia, ao lado do Emissário Submarino (também conhecido como Parque Municipal Roberto Mário Santini), o quarteto deu detalhes de Realidade Placebo. E, no melhor estilo caiçara de ser, o bate-papo foi regado a cerveja gelada e porção de peixe frito.

Marcão indica passeios em Santos

Observando as ondas do mar batendo nas pedras do parque, Marcão diz que o Emissário lhe traz boas lembranças. Foi ali, por exemplo, que o Charlie Brown Jr. gravou o clipe Quinta-Feira, em 1997.

— É um lugar que eu curto muito. Quando fizemos o clipe, a gente queria um pier que representasse Santos, nosso habitat. Foi uma época de grandes mudanças nas nossas vidas, com a música do Charlie Brown chegando para o Brasil inteiro. Emocionante.

Devido a importância do lugar para os fãs do extinto grupo, em 2013, a pista de skate do Emissário foi batizada de Alexandre Magno Abrão, em homenagem a Chorão.

Bula: Lena Papini, Pinguim Ruas, André Freitas e Marcão Britto

Bula: Lena Papini, Pinguim Ruas, André Freitas e Marcão Britto

Daniel Vaughan/R7

Recuperado das velhas lembranças, Marcão fala dos planos da atual banda. Ele se orgulha que, apesar de usar as facilidades virtuais do momento, o grupo ainda mantém certos princípios da velha escola roqueira. Ou seja, depois de divulgar os singles, a Bula faz questão de lançar um álbum completo com todas as 18 faixas. 

— Nossos fãs ainda gostam de ter um disco inteiro para ouvir, porque traz uma história do começo ao fim. Além disso, depois das plataformas, vamos produzir um CD físico com capa, encarte. A gente curte criar o conceito do trabalho.

A Bula em boteco santista

A Bula em boteco santista

Daniel Vaughan/R7

O baterista Pinguim Ruas, outro ex-Charlie Brown, ainda lembra que as novas composições divulgadas até o momento animaram os fãs.

— A gente prefere lançar uma música e trabalhar bem isso, sem pressa. Hoje, postamos as faixas e observamos a reação do público. E, em seguida, soltamos o álbum. Os fãs têm gostado muito do resultado. Por outro lado, tem muitos artistas, principalmente, do pop e sertanejo, que lançam apenas singles. É um outro método, mas acho algo efêmero, porque a informação fica muito rápida.

A baixista Lena Papini celebra que a internet trouxe mais liberdade para os artistas.

— Estamos indo na contramão da tendência, pois gravamos um álbum com quase 20 faixas. É um disco longo para hoje em dia. E, antes do lançamento, os fãs dão opiniões sobre as composições. Fazemos tudo da forma que queremos. Assim, mantemos a essência do que a gente é.

Posses e Aparências

As letras de Realidade Placebo tratam de temas tão atuais quanto polêmicos como solidão, depressão e suicídio. Entre as composições inspiradas nos assuntos citados, estão Esperto e Otário, Anjos e Demônios, Diamantes no Céu (A Guerra e a Paz) e Vencedores e Vencidos.

Marcão explica que os textos são um reflexo e questionamento sobre a situação mundial.

Realidade Placebo é sobre como vivemos em uma era de posses e aparências. Muita gente mostra uma vida descolada nas redes sociais, mas, na verdade, temos um índice assombroso de solidão, depressão e suicídios entre a população. Não podemos ignorar isso, então, o disco aborda essa dualidade.

Marcão diz que é preciso falar abertamente sobre a depressão.

— Felizmente, são assuntos que estão sendo mais descutidos e deixando de ser tabu. E, pense bem, basta ver o noticiário para ficar triste. Olha, por exemplo, o que houve na escola em Suzano.

No mundo artístico, perdemos recentemente o vocalista Keith Flint, do Prodigy, que se matou aos 49 anos, no começo do mês passado. O artista entrou para o ranking de saudosas estrelas da música que sofriam de depressão, como Chris Cornell, Chester Bennington e Dolores O'Riordan.

Banda Bula lança segundo disco de estúdio no dia 12 de abril

Banda Bula lança segundo disco de estúdio no dia 12 de abril

Daniel Vaughan, do R7

Pinguim relembra que o doente sofre preconceito da sociedade.

— Presenciamos uma série de tragédias em um pouco espaço de tempo. Depressão é uma coisa seríssima, mas ainda tem gente que chama isso de "frescura".

Volta por cima

A dualidade tão comentada nas letras de Realidade Placebo também esbarram em dramas pessoais. Marcão, que vivenciou em 2013 duas mortes trágicas no Charlie Brown, com Chorão e Champignon, diz que a fama, às vezes, pode vir acompanhada de uma felicidade aparente.

— O sucesso é uma espécie de "pacote" que, para o público, muitas vezes, mostra só o artista no palco, curtindo e feliz. Só que, por trás disso, existe um trabalho de confinamento e solidão. E tem muita gente que aparenta ser forte, fisicamente e espiritualmente, mas na verdade é frágil.

O guitarrista confessa que ele mesmo escapou de cair em uma tristeza profunda. E, depois de conquistar sucessos e atravessar obstáculos, Marcão vive uma nova fase na vida com a banda Bula.

— Já me apoiei na música para me livrar de situações pesadas. A arte tem um poder muito forte, pois me trouxe até aqui. Me salvou. Nós (olhando para o grupo) temos um grande privilégio de viver de música no Brasil. Só tenho que agradecer!