Música Filho de Tim Maia sofre para trabalhar: "O nome do pai assusta"

Filho de Tim Maia sofre para trabalhar: "O nome do pai assusta"

Ator Carmelo Maia relembrou histórias emocionantes do pai e desabafou sobre o "peso" de levar o sobrenome do cantor famoso

Nesta quinta-feira (15), o Brasil relembra 20 anos da morte de Tim Maia

O acervo de Tim Maia está com o filho Carmelo Maia

O acervo de Tim Maia está com o filho Carmelo Maia

Fotos: Arquivo/Estadão Conteúdo e Arquivo Pessoal

Nesta quinta-feira (15), o Brasil relembra 20 anos da morte de Tim Maia. Um dos maiores cantores do Brasil, ele marcou para sempre a música popular brasileira. Amado por seu vozeirão e muitas vezes odiado por seu gênio mordaz, o compositor ainda continua sendo venerado como um artista sem comparações.

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Hoje, quem leva à frente o nome do cantor é o herdeiro, Carmelo Maia, de 43 anos. Dono do espólio de Tim, ele já autorizou o relançamento de discos históricos, livro, filme, musical e ainda tem vários projetos para o futuro. Entre os planos de Carmelo, estão liberar músicas inéditas, a vontade de fazer um festival temático, uma exposição com seu acervo e até um trio elétrico de Carnaval. 

— Quero lançar algumas coisas até o final do ano. Minha cabeça fervilha de ideias! Não deu tempo de fazer algo agora na data de morte, mas tudo está valendo até o final do ano. Aliás, como cantava Tim: "Vale tudo!" (risos)

Carmelo nasceu durante a fase polêmica do envolvimento de Tim com a Cultura Racional, na metade dos anos 70. Já o cantor Leo Maia (nome artístico de Marcio Leonardo Gomes da Silva), é filho de um outro relacionamento da mãe, Geisa. No momento, os meio-irmãos não se falam por problemas pessoais.

"Herdei quase três milhões em dívidas, devido a sanguessugas que se diziam amigos do Tim Maia"
Carmelo Maia

Apesar de ter sido criado por uma tia e pela avó paterna, Carmelo relembra carinhosamente que o "doidão" Tim era bem diferente quando estava em família.

— Meu pai jamais permitiu que eu bebesse uma lata de cerveja na frente dele e nunca usou qualquer tipo de droga ao meu lado. Era muito carinhoso e me amou da maneira dele.

O pequeno Carmelo Maia posa entre a avó paterna e o pai, Tim Maia

O pequeno Carmelo Maia posa entre a avó paterna e o pai, Tim Maia

Arquivo pessoal/Carmelo Maia

Assim como o pai, Carmelo também tem paixão pela carreira artística. Porém, ele quer subir aos palcos somente como ator. Atualmente, ele faz parte do elenco da peça Os Figurantes no Rio. Mas o artista desabafa que, muitas vezes, ser filho de famoso é difícil até para arrumar trabalho no meio.

— Ainda bem que eu não canto nada. Já levo o peso do Tim nas costas, que é um fardo grande! Muitos pensam que as portas vão se abrir por causa dele, mas não é bem assim. O nome do cantor assusta quando procuro emprego como ator, pois criam expectativas diferentes da realidade. É horrível!

Carmelo também reclama das dívidas que contraiu ao assumir o espólio de Tim, quando o artista morreu em 1998. O rapaz até estudou Direito para poder se organizar melhor na tarefa "corriqueira" de fechar acordos na justiça e brigar pelos direitos do pai. E ele também faz jogo duro com empresas que usam o cantor para lucrar sem sua permissão.

— Herdei quase três milhões em dívidas devido a sanguessugas que se diziam amigos dele e também por irresponsabilidades do próprio Tim, que não sabia adminstrar seus bens. Ganhei o ônus e o bônus. Porém, como meu pai falava: "Sem tem juros, pago quando quiser!" (risos)

Veja abaixo a entrevista completa com Carmelo Maia, onde ele fala sobre a herança do pai, o relacionamento familiar e os projetos para o futuro.

R7 — Tim Maia faz muita falta hoje em dia?
Carmelo Maia —
Não temos mais artistas do calibre do Tim, tirando a geração dele. Estamos falando de um gênio, autodidata, multiinstrumentista, cantor e compositor. É o Tim Maia que cantava de baião nordestino ao funk negro.

R7 — Então, além da perda de Tim, a "culpa" pela falta de qualidade musical é da atual geração?
Carmelo Maia —
Fazer sucesso antigamente era muito difícil, sendo que hoje quase tudo é artificial. É a mesma coisa que comer comida congelada. Por exemplo, Pelé e Garrincha jogavam em uma época que a bola era costurada com 32 gomos, pesada e não era completamente redonda. Hoje, temos bola feita pela NASA e o pro tools [aplicativos de áudio] para melhorar a voz!

R7 — O Tim Maia criou um novo tipo de MPB?
Carmelo Maia —
Ele foi um garoto precoce que, aos 16 anos, fugiu para os EUA, bebeu na fonte do soul e foi deportado. Quando ele chegou no Brasil, trouxe consigo toda a bagagem da Motown [importante gravadora dos EUA especializada em música negra] contribuindo de forma valiosíssima com uma receita musical perfeita de Chuck Berry, Little Richard, Sam Cooke, entre outros. Assim, ele foi influenciando a nossa música brasileira e criando quase um gênero novo.

"Muitos pensam que as portas vão se abrir por causa dele, mas não é assim"
Carmelo Maia

R7 — E ele foi desafiador ao gravar independentemente.
Carmelo Maia —
Além da parte musical, o Tim foi pioneiro em ter sua própria gravadora e editora (Seroma/Vitória Régia Discos). E naquela época ninguém havia tido essa visão. Por isso, eu falo: Tim Maia é para ser estudado por capítulos. Era um cara intenso, com várias personalidades dentro de uma pessoa só!

R7 — Apesar do sucesso do Tim, depois da morte dele houve um redescobrimento. Você acha que o brasileiro tem esse mal de só dar valor para nossos ídolos quando eles morrem?
Carmelo Maia —
Meu professor de literatura dizia: “Seu pai é um anti-herói e ele será reconhecido tardiamente". Infelizmente, o Brasil padece deste mal. Já nos EUA e Europa, a cultura anda ao lado. Quando meu pai completou 70 anos, a data foi comemorada mundialmente, 24h sem parar. O reconhecimento e o valor dado a ele pelos gringos é impactante e, ao mesmo tempo, frustrante. Ele é nosso!

R7 — Você é detentor da obra do Tim. Você vai lançar algo para relembrar os 20 anos sem ele?
Carmelo Maia —
Quero lançar algumas coisas inéditas, mas não deu tempo do projeto ficar pronto para a data. Mas até o final do ano estará valendo. Aliás, como meu pai cantava: "Vale tudo!" [risos]

Carmelo cuida do acervo do pai

Carmelo cuida do acervo do pai

Arquivo pessoal/Carmelo Maia

R7 — Depois do filme sobre o Tim, você gostaria de lançar um documentário?
Carmelo Maia —
Tenho contrato com a RT Features, mas acredito que isso não sairá tão cedo.

R7 — E com o acervo que você tem, daria para fazer uma bela exposição sobre o Tim?
Carmelo Maia —
Sim. Tenho bastante coisa, como roupas de shows, objetos, instrumentos, entre outros. Pensei numa mostra itinerante, mas tudo neste País é muito difícil. A cultura, os incentivos... tudo está sucateado.

R7 — Muito se fala da fase da Cultura Racional do Tim. Você já lançou isso em CD, mas os vinis ainda são raros e disputados a preços de ouro. Existe um plano de relançar os dois LPs?
Carmelo Maia —
São meus discos preferidos e, inclusive, nasci dentro da fase Racional. Meu nome foi sugerido pelo Manoel Jacinto, o mentor do Universo em Desencanto. Minha cabeça fervilha, tenho milhões de projetos, mas sou um só... porém, ainda quero fazer uma edição especial em vinil dos discos Racional.

Raridade: o LP da fase Racional custa uma fortuna

Raridade: o LP da fase Racional custa uma fortuna

Reprodução/CD

R7 — Qual é a música do Tim Maia que você mais curte?
Carmelo Maia —
Sou suspeito para falar disso. E depende do momento da minha vida. Essa tal Felicidade é uma autobiografia. Falta só colocar um holograma dele sentado na sala do apartamento e tocar essa música de fundo para eu chorar. Ele era um homem que odiava a solidão. Agora, neste momento, estou ouvindo Nobody Can Live Forever. Ninguém pode viver para sempre!

R7 — Você herdou o patrimônio de um artista famoso que também colecionava processos. Como você administra isso?
Carmelo Maia —
Herdei quase três milhões em dívidas, também por irresponsabilidade dele. Mas sou Tim Maia do Brasil! Se tem juros, pago quando quiser. [risos] Ganhei o ônus e o bônus nessa empreitada. Nem tudo são flores como várias pessoas pensam, pois existem muitos cravos e espinhos.

"Fazer sucesso antigamente era muito difícil, mas hoje quase tudo é artificial"
Carmelo Maia

R7 — Mas você ainda tem dívidas?
Carmelo Maia —
Sim, continuo pagando. E, pense, hoje ele não existe para fazer shows, o que lhe rendia muita grana. O Tim chegava a ficar três anos sem fazer espetáculos. Daí, quando começava a diminuir sua saúde financeira ou ele queria executar um projeto audacioso e independente, ele retornava aos palcos. Isso facilitava muito. Agora, para mim, é mais difícil. Atualmente, são mais de 400 processos.

Carmelo posa ao lado de Djavan, Tim e Caetano

Carmelo posa ao lado de Djavan, Tim e Caetano

Arquivo pessoal/Carmelo Maia

R7 — Mas de onde vem a maioria dos processos?
Carmelo Maia —
Tem de tudo um pouco... desde reclamações trabalhistas de músicos pedindo indenizações estratosféricas a autores que alegavam nunca ter recebido pagamentos. A maioria dessas pessoas são sugadores de saúde financeira e muitos processos passaram a surgir após a morte dele. Por que não processaram ele em vida? Ninguém responde! Realmente existia uma irresponsabilidade por parte dele, não nego e pago um preço muito alto.

R7 — E, claro, imagino que o Tim não sabia nada de administração e economia.
Carmelo Maia —
Ele não delegava nada a ninguém! Tudo era colocado na conta dele, mas nem sempre era dele. Meu pai pagava, mas não emitia recibos e, nessa brecha, muitos se aproveitaram. Era desorganizado, porém nunca foi desonesto. Fato é que ele queria cantar, compor, cobrar e ainda administrar. Então, ele foi passado para trás por muitos que entraram em sua casa e chamavam de “amigo”. Por causa disso, ele passou a desconfiar até da sombra. Segundo o próprio Tim, na década de 90, ele dava o dinheiro do condomínio para sua ex-mulher, mas ela jamais pagou nada! Isso porque ela ainda engravidou de um sobrinho dele. Ele desabafava dia e noite sobre o assunto. Agora, por exemplo, o Tinho Martins, chefe da Banda Vitória Régia, trabalhou por mais de 20 anos e jamais entrou com uma ação.

"Meu pai nunca usou qualquer tipo de droga ao meu lado"
Carmelo Maia

R7 — Você até estudou Direito para poder administrar essa bagunça?
Carmelo Maia —
Sim. E, somente em agosto do ano passado, eu entrei com 11 processos contra a Renner, Cavalera, Reserva, Corinthians e outras empresas que utilizaram indevidamente sua imagem para exploração comercial sem minha autorização.

Carmelo Maia durante o espetáculo Os Figurantes, no Rio

Carmelo Maia durante o espetáculo Os Figurantes, no Rio

Divulgação/Renato Mangolin

R7 — Apesar da fama de maluco, parece que o Tim era muito carinhoso e até careta com sua educação.
Carmelo Maia —
Meu pai jamais permitiu que eu bebesse uma lata de cerveja na frente dele e nunca usou qualquer tipo de droga ao meu lado. Toda vez que tinha necessidade de fumar "um", existia uma “senha”. Generosamente, ele pedia para dar uma voltinha na praia, ver as cocotinhas ou descer pra comer no restaurante do hotel onde ele morou. O Tim me amou da maneira dele. Chegava às quatro da manhã para ver o filho, a mãe e as irmãs. E ainda fazia questão de implicar por ciúmes com a mais nova, o "Tim Maia de Saia", Anna Maria Maia. Ele levava dois cachorros e chamava-os pelo nome das irmãs Anna e Isolda. As duas só faltavam furar o olho dele. [risos]

"Ele dava o dinheiro do condomínio para sua ex-mulher, mas ela jamais pagou nada! E ainda engravidou de um sobrinho dele"
Carmelo Maia

R7 — O Tim sempre foi um cara muito divertido, com frases certeiras e histórias fantásticas. Tem algum fato que te marcou?
Carmelo Maia —
Quando fiquei responsável por levar ele para casa, após um dos shows memoráveis no Canecão [Rio]. No caminho para Barra, ele resolveu passar na nossa casa na Lagoa. Daí, ele pegou seu Doberman, enfiou dentro de uma Fiat Uno com cinco pessoas. Chegamos em casa, deixamos ele, pois tinha show no dia seguinte. Quando percebeu que estávamos indo embora, Tim gritou: “Pega, Comanche!” Só que o cachorrão era adestrado e saiu correndo, quase mordendo na bunda do meu professor. Sorte nossa que o elevador ainda estava parado no andar. [risos]

Tim Maia era um paizão, segundo Carmelo

Tim Maia era um paizão, segundo Carmelo

Reprodução/CD

R7 — Como ator, você sofre sendo filho de um cara famoso?
Carmelo Maia —
É um saco, pois acabo me cobrando muito! Graças a Deus não canto nem tenho voz para isso. Meu pai tinha uma frustração, pois queria ser cineasta, uma espécie de Spielberg. E, ao ver no filho o desejo de fazer teatro, cinema e TV, investiu nas melhores escolas de formação para mim. Levo o peso do Sebastião nas costas, que é já um fardo grande! E muitos pensam que as portas vão se abrir por eu ser filho do Tim Maia... mas não é bem assim. Uma vez fui chamado para fazer participação numa novela, mas o produtor de elenco mudou seu procedimento comigo quando soube do meu parentesco. Ele não queria me contratar, pois achava que o cachê seria pouco para mim. Implorei tanto com argumentos plausíveis que ele acabou aceitando. Ser filho é um detalhe... só peço gentilmente a oportunidade para fazer testes e ser convidado. Mas o nome dele assusta, pois criam expectativas. É horrível!

R7 — Quais são seus planos como ator para o futuro?
Carmelo Maia —
Posso trocar planos por sonhos? Gostaria muito poder trabalhar com Matheus Natchergaele... emendar um trabalho atrás do outro. E não importa o canal de veiculação que eu faça, cinema teatro ou TV, porque amo interpretar. Só quero ser ator e seguir minha vida em paz.

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