Música Ícone dos anos 90, Dinosaur Jr. recompensa esforço dos fãs em festival de SP

Ícone dos anos 90, Dinosaur Jr. recompensa esforço dos fãs em festival de SP

Trio Dinosaur Jr. retorna ao Brasil depois de quatro anos

Trio Dinosaur Jr. retorna ao Brasil depois de quatro anos

Amanda Mont'Alvão Veloso/R7

O reles mortal que se prontificou a assistir aos shows do Fucked Up e do Dinosaur Jr. no último sábado (3), no Cine Joia, em São Paulo, precisou passar por uma triagem obscura que incluía a expectativa, a promessa, o descumprimento do prometido e a possível redenção com longas e esperançosas filas que conectavam a casa de shows à saída da estação Liberdade do Metrô.

Essa triagem, na verdade, foi uma infeliz regra nos primeiros quatro dias do festival Converse Rubber Tracks Live, que despontou com a bela intenção de trazer ótimas bandas pelo preço de uma injeção na testa. Mas a mecânica burocrática, desrespeitosa e falha de distribuição dos ingressos gratuitos desenvolveu uma gastrite para o público e uma dor de cabeça para os envolvidos com o festival. Em vez de senhas ou retiradas antecipadas das entradas, optou-se por iludir o fã com a ideia de que ele tinha ganhado o ingresso, quando na verdade deveria ser o primeiro a chegar ao Cine Joia e garantir sua entrada, já que o benefício estava sujeito à lotação da casa. Some a isso o fato de que foram distribuídos cerca de 3.000 possíveis ingressos por dia de evento, sendo que a lotação máxima do Cine Joia é de 1.200 pessoas.

Depois dessa odisseia imposta pelo entretenimento que leiloa o desejo do fã de ver uma banda, era necessário, obrigatório e praticamente catártico esperar que os canadenses do Fucked Up e os norte-americanos do Dinosaur Jr. destilassem barulho e potência para um público que já chegava cansado ao Cine Joia naquele sábado e tinha quatro bandas pela frente — as brasileiras Churrasco Elétrico e Single Parents completavam o line-up do dia.

Os seis integrantes do Fucked Up subiram ao palco timidamente, com sorriso de canto de boca. Esse contido cartão de visitas foi desmascarado em segundos, quando entram os primeiros acordes de Queen of Hearts, do disco David Comes to Life (2011). Sobre uma base melódica calcada em três guitarras, ecoam os versos gritados de Damian Abraham. Pouco tempo depois, a agressividade verbal se veste de carisma, já que ele cede o microfone para o público; abraça quem está na plateia; caminha entre a multidão, se enrolando nos fios, e personifica a boa e velha tradição do hardcore de sumir com a distância entre público e banda durante os shows. A provocação foi respondida à altura, e começaram a surgir rodas de pogo pelo salão do Cine Joia.

Canadenses do Fucked Up se apresentaram pela primeira vez no País

Canadenses do Fucked Up se apresentaram pela primeira vez no País

Amanda Mont'Alvão Veloso/R7

A sequência musical desafiou o fôlego de quem aguardava a banda e também daqueles que a conheciam pela primeira vez. Do disco "David Comes to Life", responsável por inserir o Fucked Up em conversas além-hardcore e por flertar com o alternativo, vieram também a música-título, A Little Death e o desfecho do show, com The Other Shoe. No meio de tantos berros enérgicos, mal sabia o público que, ali, o que se cantava era o amor, a frustração e os problemas da guerra em uma narrativa construída para o disco.  

Mas a intensidade se concretizava mesmo com músicas mais antigas, como Son the Father, I Hate Summer, Black Albino Bones e Police. Damian diz ser grato por tocar no Brasil, e reverencia o hardcore brasileiro. Se ele se projeta como porta-voz, em contato físico com o público, ao fundo a banda alimenta e faz eclodir uma massa bipolar de peso e lirismo. A despedida do palco veio sob calorosos aplausos, colocando ponto final a uma apresentação positivamente curta, mas explosiva.

Depois de cerca de meia hora de intervalo para literalmente emparedar o palco de amplificadores, J Mascis, Lou Barlow e Murph deram início ao seu característico mantra sonoro de erudição na guitarra e descompromisso alternativo. In a Jar, SludgefeastLittle Furry Things, The Lung e Raisans rasgaram o silêncio e representaram o disco "You’re Living All Over Me" (1987), que ajudou a desenhar uma sonoridade que hoje abarca desde o college rock ao sludge, passando pelo noise e pelo stoner herdado da banda paralela de J, o Witch.

A tensão do hardcore deixada pelo Fucked Up cerca de uma hora antes retornou com o Dinosaur Jr na dobradinha de Training Ground — originalmente gravada pela antiga banda de J e Lou, o Deep Wound — com Budge. A clássica Freak Scene, obrigatória em pistas de skate, sustentou energicamente a apresentação, que também passeou pela cadência de Out There e Watch the Corners. Start Choppin e Feel the Pain, excelências melódicas em forma de música, inseriram novos fãs à variada cartela do trio. O bis, por fim, selou com Just Like Heaven (cover do The Cure) e Forget the Swan o pacto com o público brasileiro construído em 2010, quando a banda veio pela primeira vez ao Brasil.

J assistia ao show do Fucked Up no canto do palco e parecia preparado para subir e dividir com Damian os vocais de Led By Hand, destaque do último disco do Fucked Up, "Glass Boys (2014)", e que tem a participação de J. A expectativa se descontruiu, já que acabara o show dos canadenses, mas foi parcialmente suprida quando Damian subiu e cantou Chunks, um cover da banda Last Rights, de Boston.

Festival erguido sobre o patrocínio de uma marca de tênis a ações de música, o Converse Rubber Tracks Live, que já trouxe o baixista Mike Watt (Minutemen) ao Brasil e incentiva a gravação de bandas nacionais, acertou na curadoria das bandas internacionais, mas amargou os dissabores de propor shows gratuitos que não foram necessariamente acessíveis. O nível de histeria em torno dos ingressos foi catalisado na última quinta-feira (2), durante o show do Busta Rhymes, quando um homem invadiu uma área que leva à caixa d'água do Cine Joia e provocou o desabamento de parte do teto, ferindo uma DJ.

O festival termina neste domingo (4), com os shows de Maguerbes, DLC, The Sword e Clutch. Recomenda-se paciência na fila.