Strong Island explora assassinato obscuro de irmão do diretor

Documentário disponível na Netflix desde setembro foi indicado ao Oscar e é primeiro filme com diretor trans a receber nomeação

Strong Island: filme explora crime de irmão de Yance Ford

Strong Island: filme explora crime de irmão de Yance Ford

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A atual leva de documentários que exploram crimes obscuros e prisões supostamente injustas se tornou em uma das apostas mais bem-sucedidas da Netflix nos últimos anos, rendendo inclusive inúmeras indicações para premiações de cinema.

E em 2018, a produtora de conteúdo para streaming estará representada no Oscar pelo documentário Strong Island, que explora o assassinato do irmão da diretor do filme, Yance Ford, em 1992.

Mesmo que não conquiste o prêmio, o filme já entrou para a história da cerimônia por ser a primeira vez que um cineasta trans é indicado.

Com um roteiro confessional e em grande parte do tempo contado em primeira pessoa (pela voz da própria Yance), Strong Island tenta descobrir as causas que levaram uma família de Long Island a passar por uma traégia que ainda os abala mesmo com a passagem de 26 anos.

A região, dominada majoritariamente por famílias brancas e alguns guetos isolados de cidadãos afro-americanos, tem um histórico de violência policial contra esse recorte da comunidade. 

Vítimas da pobreza e falta de oportunidade no mercado de trabalho, essas famílias marginalizadas enfrentam violência doméstica, roubos e vivem com pouco dinheiro para manter um nível de vida básico. Para Yance Ford, esse é o assunto que mais merece ter atenção na história, já que resulta nos principais desafios enfrentados pelos negros desde sempre.

— Eu acho que as pessoas precisam ver isso, e que precisamos ver mais disso. Precisamos ver que as famílias negras não estão sem amor ou definidas pelo domínio. Ou todas essas patologias que a sociedade tende a colocar em famílias negras sem realmente entrar e perguntar a essas pessoas sobre suas vidas. Isso tem que parar, e acho que o filme pode realmente ajudar isso.

Filme estreou na Netflix, em setembro

Filme estreou na Netflix, em setembro

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E é focada nessa realidade, que Yance conta a história da sua vida e a do irmão. Com uma câmera que enquadra o rosto, ele conta de forma emocionada o que ocorreu em 1992.

À época, seu irmão William foi assassinado brutalmente, mas até hoje há dúvidas sobre as motivações e questionamentos de qual é a justificativa para que o mecânico Mark Reilly não respondesse pelo seu ato.

Aliás, as investigações tomaram um rumo no qual o próprio William acaba sendo culpado pela própria morte, segundo conclusões da perícia, que considera o caso como legítima defesa. Yates comentou o impacto dessa decisão na história dos Estados Unidos em entrevista à NBC New York.

— Há muito pouca diferença entre o que se diz das vítimas atuais que são desarmadas e mortas por pessoas fortemente armadas e o que foi dito sobre meu irmão há 25 anos.

Além do próprio caso familiar, no fim Yance tenta explorar os motivos que levam o sistema judiciário norte-americano a tomar decisões sempre desfavoráveis aos negros, mesmo em casos onde não há culpa ou em que são vítimas.

O filme não entrou no circuito de cinemas, mas pode ser visto na Netflix, inclusive no Brasil.