Pop Thalles supera polêmicas no gospel: "Não vivo isolado do mundo"

Thalles supera polêmicas no gospel: "Não vivo isolado do mundo"

Cantor passou anos explorando a América Latina e enfrentou portas fechadas após declarações sobre ser mais rico e talentoso que qualquer cantor gospel

Thalles supera polêmicas no gospel

Thalles Roberto lança novo disco após período no exterior

Thalles Roberto lança novo disco após período no exterior

Divulgação

Thalles Roberto surgiu no gospel em 2004 como um fenômeno que conseguiu, como poucos, superar as barreiras da música cristã e ser consumido pelo mercado secular. Com uma mistura de funk, soul e pop rock, o ex-backing vocal do Jota Quest tinha como objetivo ser um artista que não ficasse preso em um só nicho.

Por isso, ao contrário da maioria dos artistas religiosos, ele nunca se recusou a ir em programas de TV e muito menos tocar em eventos sem características evangélicas. Ao mesmo tempo que essa decisão garantiu sucesso, fez com que o cantor fosse criticado pelo público gospel sempre que aparecia no Jô Soares, no The Noite (do Danilo Gentilli) ou no Esquenta, de Regina Casé. Afinal, Thalles era ou não religioso? Essa foi sempre a pergunta que ele precisou responder e provar durante a carreira. E até hoje prefere responder de maneira bem particular.

— Eu não sou um cantor que promove religiões ou igrejas. Minhas músicas falam sobre relação com Deus, que tenho desde criança, mas que foi intensificada quando passei por um momento ruim na minha vida. Não estou nessa para agradar igreja e sim para cumprir missão. Meu coração é aberto para todo mundo. Tanto que tenho fãs famosos que vão de Neymar a Simone e Simaria. Eu não vivo isolado do mundo.

No entanto, esse perfil "lobo da estepe" do gospel, fez Thalles ficar um pouco isolado dentro do segmento. E ao não saber lidar com as críticas dos colegas de profissão, o cantor acabou por emitir declarações consideradas arrogantes sobre o segmento.

Em um dos vídeos mais populares de frases de efeito do músico, ele aparece comentando que é o cantor gospel mais rico e talentoso do País. E isso, claro, não pegou bem. Thalles só se desculpou dois anos depois. E com o caso, aprendeu uma lição: nunca mais ler o que escrevem sobre ele na internet e ignorar ao máximo o que ouve nos bastidores.

— A internet atrai todo tipo de gente. Muitas pessoas iam às redes sociais apenas para me atacar. E eu fui somando essas críticas no meu interior e não soube lidar com elas. Foi quando caí na besteira de dar aquelas declarações em 2015. Passei dois anos pensando sobre o que fiz antes de pedir desculpas sinceras. Aquilo me atrapalhou, sim. Vivia o melhor momento da minha carreira e é claro que enfrentei portas fechadas na sequência.

Mas ao mesmo tempo que parte do mercado no Brasil virava as costas para Thalles, a América Latina abria várias outras. Com agenda menor por aqui, o cantor aproveitou a oportunidade de explorar 20 países do Continente, começando pela Costa Rica. Thalles passsou três anos regravando os sucessos em castelhano e fazendo shows na Colômbia Argentina, México e até Estados Unidos, onde firmou contrato com a icônica gravadora Motown.

— Eu queria fazer show fora do Brasil, mas não esperava que fosse acontecer assim. Tive que aprender o idioma à força e regravar minhas músicas em espanhol porque lá ninguém entende português. Foi um recomeço.

"Passei dois anos pensando sobre o que fiz antes de pedir desculpas sinceras. Aquilo me atrapalhou, sim. Vivia o melhor momento da minha carreira e é claro que enfrentei portas fechadas na sequência"
Thalles

De volta ao Brasil

Apesar do bom momento vivido longe de casa, Thalles resolveu retornar ao País e gravar um novo disco. Essência é o primeiro projeto de inéditas lançado pelo cantor em quatro anos e o coloca novamente em contato com o público brasileiro. Com o CD, ele quer recuperar o prestígio que atingiu com os álbuns ID3 e Ao Vivo em São Paulo, pontos altos de sua carreira. O projeto também terá versão em castelhano, que sai em breve.

A turnê de Thalles para promover o CD, no entanto, pode ter shows selecionados a dedo. Menos preocupado com agenda como no passado, ele explica que não quer mais viver afastado da família em prol da carreira.

— Antes eu aceitava tocar em qualquer lugar. Achava que fazia parte da vida do cantor. Mas agora eu escolho onde e quantas vezes quero tocar. Não posso deixar que a carreira atrapalhe a convivência com a família, como artistas famosos fazem por aí. Hoje não dependo de música. Investi em outros negócios exatamente para ter essa liberdade.

Thalles pretende fazer menos shows em prol da família

Thalles pretende fazer menos shows em prol da família

Divulgação

Thalles diz que é contra a "prostituição da arte" e é mais bem-sucedido aquele que pode escolher o que e quando faz.

— Veja se Djavan, Zé Ramalho, Caetano se submetem a qualquer tipo de show e convite. Não, porque priorizam a qualidade e o bem-estar. Eu acho que falta isso na música atual. Essa loucura do sucesso pelo sucesso não me atrai mais.

Voz negra

Criado em uma família religiosa de baixa renda, Thalles foi consagrado pastor ainda criança. O contato com a palavra de Deus, no entanto, não foi o suficiente para que ele se mantivesse longe dos prazeres mundanos. No período em que foi backing vocal do Jota Quest, costuma dizer que conheceu o fundo do poço e viveu em uma espiral de sexo, drogas e noitadas.

— Até que um dia percebi que não funcionava mais pra mim e não era por ali. Eu canto para quem já se viu perdido como eu. Por isso danço, sou intenso. Pastores mais antigos e conservadores reprovam meu comportamento no palco. Mas eu já não me importo. Sei que to dialogando com um público que não enxerga a mesma verdade em outros artistas.

Com seu cabelo black power e roupas de astro de r'n'b norte-americano, Thalles também chama atenção pelo visual e por ser entusiasta da moda e da cultura negra em sua carreira. É através dele que muitos fãs tem contato pela primeira vez com James Brown, Stevie Wonder, Marvin Gaye e outros grandes ícones da black music. E ele entende o papel que tem nessa influência e iniciar muia gente numa cultura que não é tão popular por aqui.

— Eu sou a favor de termos orgulho das nossas raízes. Fui ensinado para nunca me menosprezar e ser a melhor versão de mim mesmo. Vejo as pautas raciais atuais e sou totalmente a favor de debater padrões de beleza num país como o nosso. Mas acho que o caminho não é pelo ódio como tenho visto. Só o amor une e traz resultados. Não é com ódio que as pessoas vão entender que a beleza não está só no loiro de olho azul.