Pop U2 volta ao passado e mostra para o que serve uma banda de rock

U2 volta ao passado e mostra para o que serve uma banda de rock

 Show em SP é para fazer gente como Roger e Lobão chorar de vergonha 

U2 volta ao passado e mostra para o que serve uma banda de rock

Com um telão gigantesco e um discurso político afiado, o U2 fez, na noite desta quinta (19), o primeiro de quatro shows na capital paulista. Nesta turnê, a banda irlandesa toca, de ponta a ponta, o disco Joshua Tree, que completa 30 anos, além de outros hits.

Esta é a primeira vez que o público brasileiro pode ver a banda de um jeito mais despojado, sem um palco abarrotado de tecnologia, sem dezenas de telões, luzes, elevadores e coisas do tipo. Tem apenas a tela horizontal imensa e a banda. Mesmo mais simples, o espetáculo visual é arrebatador. No telão, vemos projeções de imagens pré-gravadas e também a banda em ação. Ali, ao vivo, vão surgindo videoclipes em tempo real, tudo já com efeitos especiais. A impressão é a de ver na tela um show diferente daquele que está no palco, embora sejam exatamente os mesmos. É quase como ver a MTV, só que no Morumbi. Aliás, o estádio estava cheio, mas não totalmente lotado.

A noite começou com o telão ainda apagado. A banda abriu com “Sunday Bloody Sunday”, “New Year’s Day”, “Bad” e “Pride”, todas lançadas em álbuns anteriores a Joshua Tree. Neste momento eram só os quatro sobre o palco e mais nada de especial. Óbvio que o público ficou maluco, apesar de que a banda não parecia estar assim muito empolgada. Num certo momento, muito mecânicos, parecia estarmos diante de um artista cover do próprio U2 fazendo um aquecimento.

Mas o show mesmo começou a seguir, quando surgiram os primeiros acordes de “Where the Streets Have No Name”, que abre o disco que dá nome à turnê. Provavelmente esta é uma das músicas mais impactantes para se abrir um show em todo o mundo do entretenimento. E é uma carta na manga que o grupo tem. Com este som passam a surgir imagens no telão e não tem como não ficar embasbacado com o que acontece ali. O U2 segue com as faixas, na ordem exata do álbum, e toca “I Still Have Found What I’m Looking For” e “With or Without You”, megahits cheios de mensagens e significados.

Bono e Larry tocam para um Morumbi lotado

Bono e Larry tocam para um Morumbi lotado

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Depois das canções mais conhecidas do Joshua Tree, o U2 continua se mostrando muito poderoso, acertado e cheio de energia como grupo. Mas o público dá uma acalmada e entra na viagem proporcionada pela tela imensa. Em músicas como “Bullet the Blue Sky”, “Red Hill Mining Town”, “One Tree Hill”, Bono e cia. vão dando seus recados. Detonam Trump, destacam povos oprimidos, enaltecem as mulheres e emocionam com “Mothers of the Disappeared” (sobre os desaparecidos durante a ditadura argentina), última do álbum. Mas não tem como não dizer que, durante um bom tempo, a apresentação fica meio chata. Boa parte do público parou de prestar atenção: tinha gente olhando o celular, fazendo selfies, comprando lanche etc. O que, na verdade, é uma pena. É que nesta turnê, o U2 toca algumas canções que nunca — ou quase nunca — foram executadas ao vivo. Mas é compreensível, porque o Joshua Tree não foi mesmo feito para ser tocado integralmente num show. Em certos momentos é uma obra um pouco árida, ainda mais para um concerto.

A coisa só fez o público vibrar novamente no primeiro bis, quando a banda retorna só com músicas pós-Joshua Tree. Estão lá “Beautiful Day” e em “Elevation”, o baterista Larry Mullen usa uma camiseta em que aparece, nas costas, a mensagem “censura nunca mais”. Você deve saber, o tema está em alta por aqui. No segundo bis vem a inédita “You’re the Best Thing About Me”, que estará no novo disco que sai em breve. A noite acaba com a clássica “One”, com todo mundo cantando junto.

Não é possível dizer que esta foi a melhor apresentação do U2 no Brasil. Já rolaram outros shows melhores, mais empolgantes e com a banda mais animada. Bono tem alguns problemas com a voz e o som não estava dos melhores. Mas com o planeta pegando fogo com sua polarização política, terrorismo, extremismo, ameaça de uma crescente extrema direita racista, Bono e seus amigos fazem questão de mostrar de que lado estão. E isso é bom. E o Joshua Tree se presta perfeitamente a isso. É como a banda já falou em entrevistas sobre a turnê: o mundo deu uma volta completa e o álbum passou a ser atual uma vez mais.

Assim, o que se viu, apesar de seus problemas, foi uma aula de como uma banda com 40 anos de carreira deve se portar. Aula principalmente para roqueiros brasileiros como Roger e Lobão, que podem aprender para o que serve uma banda de verdade. Que é ser minimamente do contra e nadar contra a corrente, como já dizia um aí no passado distante. Onde quer que esses dois — e outros também — estejam, devem estar morrendo de vergonha de um dia terem se chamados de roqueiros.

Bono, The Edge, Adam e Larry, com tantos anos de carreira, tantos discos, tanto dinheiro e fãs, mostram uma relevância e importância únicos. Querem deixar claro que não estão aqui só de passagem, mesmo correndo o risco de serem chamados de chatos e demagogos. Nenhum outro grande grupo é capaz mais disso atualmente. O U2 é o último bastião do gênero, uma Liga da Justiça no meio de um universo tomado por vilões.

Mas o show poderia sim ter sido mais empolgante.

As músicas do show:

Sunday Bloody Sunday

New Year's Day

Bad

Pride (In the Name of Love)

Where the Streets Have No Name

I Still Haven't Found What I'm Looking For

With or Without You

Bullet the Blue Sky

Running to Stand Still

Red Hill Mining Town

In God's Country

Trip Through Your Wires

One Tree Hill

Exit

Mothers of the Disappeared

Bis:

Beautiful Day

Elevation

Vertigo

Segundo bis:

You're the Best Thing About Me

Ultraviolet (Light My Way)

One

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