Helder Maldonado No Lollapalooza Brasil, o funk só entra pela porta dos fundos

No Lollapalooza Brasil, o funk só entra pela porta dos fundos

Apesar da apresentação histórica de Kevinho na edição chilena do festival, por aqui artistas do gênero só participam dos shows quando são convidados

No Lollapalooza Brasil, o funk só entra pela porta dos fundos

Kevinho e Kevin O Chris: funk pela porta de trás do Lolla

Kevinho e Kevin O Chris: funk pela porta de trás do Lolla

Divulgação

Kevinho foi uma das atrações da edição chilena do Lollapalooza. O funkeiro se apresentou no palco Perry, dedicado a novidades e experimentalismos musicais. O show foi um sucesso: público cantando junto e vários cartazes em homenagem a ele. No mesmo dia, se apresentaram ainda Greta Van Fleet, Kendrick Lamar e Lenny Kravitz, mas em outros palcos.

Para Kevinho, a experiência foi uma espécie de reconhecimento. Até meio tardio, para falar a verdade. Mas o importante é que chegou. Afinal, o cantor é um dos mais populares do Brasil desde 2017. Mas, ironicamente, nunca foi convidado para a edição nacional do Lolla. E nem do Rock in Rio.

Aliás, nem ele e nem nenhum outro funkeiro. Pelo menos não oficialmente. Quando algum astro do segundo gênero mais ouvido do País sobe ao palco do festival é por ter recebido convite de algum gringo, o que seria uma espécie de validação internacional para estar lá. Ou uma forma moderna de viralatismo cultural. Em tese, funkeiro só pode tocar no Lolla se um astro gringo chamar. E muitas vezes o astro gringo não é nada mais que um funkeiro norte-americano.

Como é o caso de Post Malone, que certamente ficaria contente em receber essa alcunha, já que é um fã do gênero. O novo astro do rap levou Kevin O Chris para seu show neste ano.

O funkeiro carioca, dono de músicas estouradas em playlists de plataformas de streaming e vídeos com milhões de visualizações no YouTube, dividiu o palco com Post e juntou dois dos estilos mais ouvidos pelos millenials: funk e rap.

Mas essa cena é rara. Só tinha acontecido antes em 2016, quando Jack Ü cedeu espaço para MC Bin Laden. O funk, mesmo quando travestido de pop, ainda está à margem de eventos desse porte. Basta lembrar o que disse Roberto Medina sobre convidar Anitta para o Rock in Rio: "Não se encaixa no perfil do festival".

Será mesmo? Tudo bem que o Rock In Rio tem perfil mais familiar e as velharias do rock e pop sejam escolhas mais seguras para o line up, porém assim como Ivete, Anitta já atingiu um patamar para ser sucesso em qualquer festival pop de grande porte. E ela nem utiliza palavrões e termos de baixo calão em suas letras, o que poderia ser justificativa para ficar de fora.

Não convidá-la, no fundo, diz mais sobre a organização do que sobre o público. No caso do Lolla, que tem um perfil de público mais jovem, a escalação de músicos que são praticamente "funkeiros gringos" e a exclusão dos verdadeiros astros do funk nacional abre margem para críticas. Principalmente se as atrações nacionais das oito edições forem avaliadas. 

Entre os nomes brasileiros que passaram por lá desde 2012, a maioria não dialoga com ninguém. Algumas das bandas não são astros de nicho hipster, não tocam na rádio e não têm quase visualizações no YouTube. Ou seja: difícil acreditar que alguém pague R$ 800 para ver show de Velhas Virgens, Nem Liminha Ouviu, Matanza e Dr. Phoebes. 

Ao avaliar esses nomes, uma outra dúvida surge: o critério de curadoria para convidar artistas nacionais leva em conta o que exatamente? Porque sucesso, na maioria dos casos, não é. Demanda também não. E nem experimentalismo.

Parece apenas que o mercado brasileiro ainda ignora o funk e acredita que o lugar dele deva ser apenas nos bailes de periferia (e em algumas poucas casas dedicadas ao estilo que já existem nos bairros nobres).

É difícil encontrar outra explicação. Já que certamente o público jovem se identifica bem mais com Kevin O Chris do que com Autoramas. E, mesmo assim, quem abriu o palco Onix deste ano foram os roqueiros.