Palavra de Homem Os Sopranos: 20 anos da série que uniu Simpsons e O Poderoso Chefão

Os Sopranos: 20 anos da série que uniu Simpsons e O Poderoso Chefão

Tony Soprano é uma espécie de Homer Simpson com os ternos de Don Corleone

Tony Soprano é uma espécie de Homer Simpson com os ternos de Don Corleone

Divulgação

Nem parece, mas já faz 20 anos que Os Sopranos revolucionaram a TV. 

No livro 'Difficult Men', um dos melhores livros sobre TV escritos até hoje, é possível entender a dimensão e influência de Os Sopranos sobre o mercado de TV atual, inclusive o conceito de 'maratona' que muita gente pensa ter começado com sites de streaming como Netflix e Amazon. Não começou. 

Por que Os Sopranos foi tão revolucionário? Por várias razões, mas principalmente por ter apresentado ao grande público americano um protagonista ambíguo, que as pessoas amavam mesmo sabendo que era um criminoso. Foi o primeiro "herói" da TV a cometer um assassinato - lembrando que os heróis da TV americana sempre foram extremamente maniqueístas. De uma hora para outra, o público estava torcendo para um assassino. Não é pouca coisa, quando lembramos que a sociedade americana é bastante conservadora em relação a esse tipo de comportamento.

Os Sopranos, que terminou em 2007, tem apenas seis temporadas e cerca de 80 horas de conteúdo. Muito pouco, infelizmente.

Embora oposta do ponto de vista estilístico, a série é, ao lado de Seinfeld, a melhor coisa que surgiu na TV no século passado. Não é só o texto maravilhoso; o elenco é incrível, a direção é sensacional. Os personagens são inteligentes, os roteiros são bem amarrados. É uma ‘dramédia’, mistura perfeita de drama e comédia. E existe algo mais difícil do que equilibrar esses dois mundos? Eu achava que isso só era possível na vida real.

O criador da série, David Chase, garante que se baseou em membros da própria família. Chase, no entanto, diz que seus parentes não têm nenhuma ligação com a Máfia. Então tá. Na minha opinião, ele chegou para o presidente da HBO e "fez uma proposta que ele não poderia recusar’.

Eu sei, o tema ‘Máfia’ agrada mais aos homens. Mas a série não é sobre violência. É sobre as contradições da vida, as motivações que nos movem e os valores que nos moldam, a complexidade da mente humana e suas consequências no cotidiano.

Os Sopranos são uma família de classe média alta de mafiosos que vive em Nova Jersey. O legal é que os personagens não são apenas os criminosos, mas também suas mulheres, filhos, mães… e eles têm que conviver com os problemas do dia a dia, como funcionários de baixo escalão que têm que ser ‘demitidos’ e coisas assim. Não há o glamour de 'O Poderoso Chefão' (a não ser quando os hilários personagens fazem imitações ruins dos colegas da família Corleone). Os Sopranos estão mais para os confusos criminosos de 'Os Bons Companheiros' de Martin Scorsese do que para os milionários de Coppola.

(Como diria Michael Corleone em ‘O Poderoso Chefão 3’: “Nunca odeie seus inimigos. Isso afeta o seu julgamento”.)

Tony, o líder da família, é um personagem tão rico, tão multifacetado, que fico imaginando realmente se ele não existe. Ele não tem nada de maniqueísta: é violento com os inimigos e carinhoso com a família, como qualquer um de nós poderia ser (se fosse da Máfia). Faz análise para curar suas noites maldormidas – e acaba tendo pesadelos com a analista. É surpreendente constatar que, se estivéssemos em sua situação, provavelmente agiríamos da mesma maneira.

O instinto de sobrevivência a qualquer custo, a felicidade que vem com o sucesso, o amor incondicional pela família… No fundo, dentro do contexto em que somos criados... somos todos iguais.