TV e Entretenimento Atriz de Deus Salve o Rei é criticada por usar truque para engordar

Atriz de Deus Salve o Rei é criticada por usar truque para engordar

Conhecido como fat suit, traje de enchimento corporal é desaprovado por nutricionistas e tem rejeição do público

Atriz de Deus Salve o Rei usa truque para engordar e é criticada

Monique Alfradique usou Fat Suit em Deus Salve o Rei

Monique Alfradique usou Fat Suit em Deus Salve o Rei

Divulgação

Monique Alfradique entrou para o elenco de Deus Salve o Rei para interpretar a personagem Gloria. A novidade chamou atenção não porque ela passa a integrar o elenco no meio da trama, mas sim pelo fato de que a atriz usará uma técnica de preenchimento corporal conhecida como fat suit para dar vida a uma mulher com sobrepeso e problemas de autoestima.

O método sempre levanta polêmicas e recebe críticas de fãs e profissionais da área da saúde.

Segundo eles, utilizar o fat suit é muito semelhante ao infame “black face", onde atores brancos se pintavam de negros e interpretavam personagens caricatos e pautados em estereótipos racistas como Jim Crow, Uncle Tom ou Sambo. Para a nutriocinista Paola Altheia, não existe deiferença entre os dois.

— Os estereótipos promovidos pelo fat suit também são muitos: a mulher gorda é solitária, come quantidades avassaladoras de comida e é dona de uma cativante “beleza interior” que só se revela no momento da trama em que ela emagrece e se torna enfim “bela” (para o arrependimento de todos os homens que não a quiseram).

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Ironicamente, em entrevista para comentar sua personagem, Monique deu uma explicação que encaixa Gloria muito próxima dessa descrição. Após enfrentar crises de autoestima e quase perder o marido para uma mulher magra, ela começará a inventar dietas mirabolantes para perder peso, o que conseguirá com o desenrolar da trama.

Para a professora Danila Lima, esse clichê reforçado em torno da personagem beira o ofensivo por só existir espaço para atrizes gordas que sejam engraçadas ou que cumpram esss padrão da superação no roteiro (conhecido tecnicamente como makeover).

— Se a personagem precisa ser gorda, sua característica é ser engraçada, simpática e sempre reforçar alguma coisa sobre o corpo dela quando aparece um suposto par romântico. Ou seja, não há espaço para uma personagem gorda com dramas reais ou assuntos que não forem em torno do peso.

Gwyneth Paltrow em O Amor é Cego com fat suit

Gwyneth Paltrow em O Amor é Cego com fat suit

Divulgação

Falta de oportunidade

A professora Anna Paula Bittencourt vai além e diz que é impossível defender uma atriz de 1,60m e 50 quilos em um papel que poderia estar nas mãos de uma profissional da área com as características físicas exigidas pela história.

— Não é nem o fato de mandar a Monique engordar, mas dar chance para alguém com o tipo físico procurado. Isso incentiva um preconceito, de uma certa maneira. A mensagem é de que não existe ator qualificado com essas características pro papel. Se tem poucos é porque nunca deram oportunidade de inserção no mercado. A Globo vive discutindo pautas de representatividade mas, com esse caso, mostra que sua desconstrução é seletiva.

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A jornalista e youtuber Alexandra Gurgel levou a discussão para o seu canal de vídeos, onde grande parte do conteúdo discute questões de padrões estéticos. Para ela, existe uma norma na TV e cinema em que só mulheres magras podem ser felizes, por isso o fat suit e histórias desse tipo ainda são levadas adiante.

— Por que ela precisa emagrecer? Por que ela não pode encontrar a autoestima no corpo que tem? Não seria mais interessante esse approach?

"No fim das contas, é um festival de desrespeito, ofensas e estigma dentro de uma associação bizarra de magreza como a mais pura beleza e ser gordo como algo que ninguém deseja ser ou se envolver com"
Paola Altheia

Não é só no Brasil

Gwyneth Paltrow é reconhecida por ser uma das atrizes mais esbeltas do cinema americano. Em 2001, no entanto, ela foi contratada para interpretar Rosemary Shanahan, uma mulher acima do peso em O Amor é Cego. Para atingir um tipo físico diferente, ela não fez uma dieta para engordar. O fat suit e recursos de pós-produção foram responsáveis pelos quilos a mais da atriz.

Apesar de ainda ser criticada por ter aceitado o papel, ela já se mostrou arrependida em uma entrevista à revista W.

— No primeiro dia em que usei o fat suit, eu estava no Tribeca Grand (hotel em Nova York) e entrei no lobby. Foi tão triste, foi tão perturbador. Ninguém fez contato visual comigo porque eu estava obesa. No dia, usava uma camisa preta com grandes bonecos de neve. As roupas que eles fazem para as mulheres com excesso de peso são horríveis. Eu me senti humilhada porque as pessoas eram realmente desdenhosas comigo.

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Chris Sullivan com o enchimento em This Is Us

Chris Sullivan com o enchimento em This Is Us

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A nutricionista Paola Altheia vai além e diz que o roteiro do filme é completamente focado em como a magreza é encarada como única forma de beleza no cinema, mas ressalta que homens não têm a mesma cobrança.

— O fato é que Gwyneth Paltrow não pode ser gorda. É algo que seria deletério para sua imagem e sua carreira, portanto a solução encontrada não foi a contratação de uma atriz gorda, mas sim transformá-la para o papel. No fim das contas, é um festival de desrespeito, ofensas e estigma dentro de uma associação bizarra de magreza como a mais pura beleza e ser gordo como algo que ninguém deseja ser ou se envolver com (em momento algum o filme aponta ou questiona os atrativos físicos de Jack Black. Quem está sempre no alvo é Rosemary).

O filme, no entanto, foi lançado há 17 anos e essas discussões ainda não protagonizavam as pautas de representatividade. Na mesma época, Reneé Zellwegger engordou para interpretar Bridget Jones e também não foi alvo de críticas.

A questão é que, mesmo com toda a discussão que existe em torno do assunto, pouco mudou. No seriado RuPaul's Drag Race, a drag queen Shangela Wadley usou fat suit em um quadro no qual ela ironizava mulheres gordas.

Chris Sullivan, o Toby da série This Is Us, é um dos atores que está no ar e recorre à técnica. E no YouTube, pessoas magras utilizam o traje para fazer vídeos de experimentos sociais sobre como ser gordo nos aplicativos de relacionamento — e acabam seguindo o caminho da estereotipagem.

— Na posição de terapeuta que lida com questões severas de transtorno alimentar e insatisfação corporal, afirmo que não vejo aspecto positivo algum na alegoria do fat suit. É falta de respeito, reforço de estigma, intensifica a pressão para que atrizes magras não se deixem engordar (“se precisar fazer uma gorda, providenciaremos uma roupa”), torna injusto o mercado para as mulheres genuinamente gordas, transforma o corpo gordo em motivo de riso, piedade e escárnio e não deixa morrer o clichê do “makeover” (a mulher feia que se torna repentinamente “bela” após uma radical transformação).

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