TV e Entretenimento Gil Gomes desabafa: “Vou trabalhar até que a doença me domine”

Gil Gomes desabafa: “Vou trabalhar até que a doença me domine”

Ex-repórter investigativo é portador de Parkinson desde 2005

Gil Gomes desabafa: “Vou trabalhar até que a doença me domine”

Gil Gomes foi um dos grandes nomes do jornalismo investigativo no Brasil

Gil Gomes foi um dos grandes nomes do jornalismo investigativo no Brasil

Reprodução/SBT

Aos 77 anos, uma das figuras mais expressivas do jornalismo investigativo no Brasil, que se destacou na televisão pela dramatização que usava para narrar crimes, afirma que só vai parar de trabalhar no dia em que morrer.

Portador de Parkinson, Gil Gomes diz que luta dia após dia para combater a doença degenerativa que o faz ter dificuldades na movimentação, perda de equilíbrio e tremores.

— Não tenho medo da morte, a morte é uma consequência da vida.  

"Quero continuar trabalhando, honrar o nome que tive, o nome que tenho e o nome que terei"
Gil Gomes

Por 12 anos, o ex-repórter policial ficou afastado da TV. A volta, há um ano, aconteceu quando recebeu o convite de um empresário, dono de uma farmácia, para comentar um programa patrocinado por uma rede de farmácias. 

— Esse trabalho está me fazendo muito bem. Melhorou minha cabeça, meu entusiasmo, minha vontade de viver. Eu andava cabisbaixo, estive arrasado. Minhas pernas estão boas, mas não saia da poltrona.

O repórter foi diagnosticado com Parkinson em 2005

O repórter foi diagnosticado com Parkinson em 2005

Reprodução

Gomes relembra que foram tempos difícieis em casa.

— Fiquei muito depressivo e, se não tivesse fé em Deus, não tinha ultrapassado esse momento.

Emocionado, o jornalista prosseguiu dizendo que ter uma ocupação é fundamental para a vida dele.

— Quero continuar trabalhando, honrar o nome que tive, o nome que tenho e o nome que terei. Quero honrar com trabalho, não com fraqueza. Se a doença me impedir de falar, eu falo de outro jeito. Estou falando com você tremendo, mas falo com entusiasmo. Tenho muita fé. E se Deus quiser, vou trabalhar até que a doença me domine, Mas não vai dominar, não. Eu sou forte.

"Eu não sabia fazer televisão, não sabia onde por a mão então comecei a mexer daquele jeito"
Gil Gomes

Gil Gomes iniciou sua carreira na extinta Rádio Marconi, nos anos 1960. Enfrentou a ditatura com "unhas e dentes".

— Foi uma época muito difícil para trabalhar. Tudo era censurado. Tinha que ter um jogo de cintura impressionante. Meu programa foi proibido dezenas de vezes. Fui levado pela polícia, era chamado para prestar depoimento, mas como tinha amigos na corporação, como o Romeu Tuma, então era solto. Tudo o que eu fazia eram críticas verdadeiras. 

Na década de 1990, mais precisamente entre os anos 1991 e 1997,  Gil Gomes ganhou fama do grande público ao integrar o time de repórteres do programa Aqui Agora, do SBT. Suas aparições eram marcadas com o gesto característico que fazia com a mão.

— Eu não sabia fazer televisão, não sabia onde por a mão então comecei a mexer daquele jeito, nasceu assim. Com isso, fui um dos caras mais imitados depois do Lula e Silvio Santos.

"Recebia ameças a toda hora"
Gil Gomes

Considerado um dos principais repórteres do gênero, Gil Gomes comentou o que tem achado do atual jornalismo investigativo.

— Não tem mais. O que eu fazia não tem mais ninguém fazendo. O tempo é diferente. O crime se organizou, a polícia se desorganizou e a imprensa acompanhou. Hoje, eles [os criminosos] matam. Na minha época não matava. Não é que o jornalismo ficou mais fraco, ele apenas se adaptou ao tempo.

Gil Gomes fez sucesso no extinto "Aqui Agora", do SBT

Gil Gomes fez sucesso no extinto "Aqui Agora", do SBT

Reprodução

Durante a conversa, o ex-repórter ainda recordou um crime que não conseguiu desvendar.

— Trabalhei 10 anos nele. Foi a morte de um menino na Vila Carrão, de 5 anos. Ele apareceu morto no dia 29 de maio de 1969. Ele foi estrangulado e multilado. Foi um crime bárbaro. Acho que eu sei quem matou, mas eu não consegui provar quem era a pessoa.

Em relação às ameaças de morte que recebeu ao longo da carreira, Gil disse já ter perdido as contas, mas comentou uma que o chamou bastante a atenção.

— Eu estava na Record. Chegou um telegrama dizendo que eu tinha 30 dias de vida. Não dei bola porque recebia ameças a toda hora. Mas no dia seguinte, chegou um outro, dizendo que eu tinha 29. E começou uma contagem regressiva. Quando foi no sétimo dia, mataram meu gato, arrancaram a cabeça dele, na minha casa, quando morava na Avenida Santo Amaro. Puseram santinho com a minha fotografia, aquele santinho de anúncio de missa de sétimo dia. E me disseram que eu ia morrer no dia 31 de março. Mas aí passou e não aconteceu nada.

Se tinha medo de seu trabalho?

— A gente é jornalista, a gente é inconsequente, a gente acha que o perigo é distante. Tinha medo, mas não tinha medo de sair, de enfrentar, de procurar. Entrava em favela e em muitos lugares que a polícia não entrava.

E, por fim, Gil Gomes fez um breve resumo de sua vida, citanto ponto alto e baixo de suas memórias.

— Ponto alto foi o trabalho que fiz, a dignidade que tenho e o respeito que o público tem por mim. Ponto baixo é a doença, que me pegou de sopetão, que me pegou sem eu estar preparado para ela, me deixando numa situação difícil.

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